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Renovação e liberdade

A Semana de Arte Moderna de 1922 é o marco da introdução ao Modernismo brasileiro. O principal objetivo da maioria dos artistas que lá exibiram suas obras era romper com as tradições acadêmicas e promover a atualização das artes e da literatura, inteirando relações aos movimentos de vanguarda europeus e norte-americanos. Essas fontes e ideias foram trazidas principalmente por Anita Malfatti, cinco anos antes da denominada 'Semana de 22'. Mário de Andrade afirmou que “foram seus quadros que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes no Brasil”. O movimento pretendia encontrar uma linguagem autenticamente nacionalista.

O intuito era assimilar as influências estrangeiras, porém posicionando-se ao lado dos países que já haviam atingido sua independência no plano cultural, formando uma “nova visão cultural brasileira”. Essa era a grande motivação da Semana de 1922, que foi idealizada por um grupo de artistas, formada por Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Anita Malfatti. Como base principal do movimento modernista, outros grandes nomes também formavam o núcleo de artistas, entre os quais Di Cavalcanti, que se inspirou na Semana de Deauville (França) sugerindo a Paulo Prado, um dos maiores patrocinadores do evento, "uma semana de escândalos literários e artísticos de meter estribos na burguesiazinha paulistana".

Cartaz produzido por Emiliano Di Cavalcanti
Cada dia foi dedicado a um tema: pintura e escultura, poesia e literatura e, por fim, música. O evento foi o ponto de partida de um longo processo de renovação artística no Brasil. As palavras de Paulo Prado confirmavam essa disposição 'modernizadora' da elite paulistana: "(...) E não veja a Arte Moderna na insuficiência dos nossos recursos de cidade de província, mas sinta – como todos nós sentimos – o sopro vivificador que há nessas tentativas modestas de renovação e liberdade".

A partir da Semana de 1922, iniciou-se uma fase de polêmicas, provocações, invenções, brigas estéticas, enfim, uma efervescência cultural que levou Mário de Andrade, um dos idealizadores do modernismo, a afirmar que os oito anos que se seguiram à 'festa' do Teatro Municipal foram "a maior orgia intelectual que a história artística registra".

Aglomeração de 'supostos' horrores

Apesar do desejo de modernização de muitos, na 'hora H' prevaleceu o conservadorismo: o público que compareceu ao Teatro Municipal de São Paulo mais vaiou do que aplaudiu as apresentações. Logo na primeira noitada, o escritor Graça Aranha já avisava: "Para muitos de vós, a curiosa e sugestiva exposição, que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores (...) outros horrores vos esperam", seguido de uma conferência intitulada “A emoção estética na Arte Moderna”. A plateia, atônita, pouco entendia. Aconteceram também exposições das artes plásticas exibindo obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, e esculturas do ítalo-brasileiro Victor Brecheret, entre outros. No segundo dia, o poeta Menotti Del Picchia dá início ao mais turbulento dos três dias.  Apresentando a conferência denominada “A Pintura e a Escultura Modernas no Brasil”, negando a associação feita entre o modernismo e o futurismo, e exaltando uma arte verdadeiramente brasileira. Para fechar a noite, três solos de Ernani Braga tocando Villa-Lobos.
 
 
Noite dos latidos
 
A literatura, tema do segundo e mais polêmico dia, provocou vaias, críticas e tumulto. Oswald de Andrade leu trechos de seu romance inédito, Os condenados. Quando disse: "Carlos Gomes é horrível!", a plateia veio abaixo com vaias e xingamentos. Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida e outros intelectuais deram sequência ao programa. Ronald de Carvalho leu trechos do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira – que faz uma crítica ao Parnasianismo - sobre uivos, relinchos, gritos e latidos vindos da plateia.
 


A tarde terminou com músicas de autores modernos e com uma conferência de Mário de Andrade.

(...) Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— 'Meu pai foi à guerra!'
— 'Não foi!' — 'Foi!' — 'Não foi!' (...)
Parnasiano aguado,
Diz: — Meu cancioneiro
É bem martelado.


 
Apoteose com calo inflamado

A noite de encerramento do evento foi regada a música. A pianista Guiomar Novaes interpretou Chopin e foi a única a conseguir silêncio do público. Heitor Villa-Lobos apareceu vestindo casaca e calçando chinelos. Foi vaiado pela plateia, que viu naquilo uma grande zombaria. Na verdade, o compositor estava com um calo inflamado. Como as Letras, as Artes Plásticas também provocaram furor. René Thiollier, escritor e mecenas, patrocinador da Semana de 22, disse que ouviu o seguinte comentário sobre o quadro O homem amarelo, de Anita Malfatti: "Ela havia se inspirado na clínica dos irmãos Revoredo, onde, pela manhã, num assalto de enjoo, em lamentável compostura, de cabeça perdida, agoniados de suores frios, se veem dúzias de indivíduos a babarem por um canudo (...)".
 
 
Leia a biografia de alguns participantes da Semana

Oswald de Andrade
Mário de Andrade
Manuel Bandeira
Anita Malfatti
Heitor Villa-Lobos
Di Cavalcanti
Guiomar Novaes

Veja também:






Livro A Semana de Arte Moderna, de Neide Rezende.



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