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Depoimentos

Cena de Carnaval, de Jean-Baptiste Debret. Os negros participavam ativamente da vida urbana já em 1835, bem antes da abolição

Kabengele Munanga - Professor de Antropologia do Departamento de Antropologia da FFLCH na Universidade de São Paulo (USP). Natural da República Democrática do Congo, radicado no Brasil há 25 anos e naturalizado brasileiro.

A comunidade negra dá mais importância ao 20 de novembro, dia da morte do principal  líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, e o Dia Nacional da Consciência Negra. Essa é a data que mobiliza a comunidade negra para uma reflexão mais profunda, algo que o 13 de maio, pelo motivo citado anteriormente, não faz.

O dia da abolição da escravatura continua a ter importância jurídica, pois nessa data a escravatura deixou de existir. Contudo, não adquiriu uma importância social porque, além desse ato, deveriam ter sido implantadas políticas públicas para a integração e participação do ex-escravo na sociedade para que o negro obtivesse a cidadania plena.

José Carlos de Freitas Félix - Fundador do Movimento Cabo-Friense de Pesquisa das Culturas Negras, participante do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), organizador do Conselho de Entidades Negras do Interior do Rio de Janeiro.

A abolição é uma discussão vencida para nós, porque o 13 de maio envolve um conceito subjetivo de liberdade: para o mercador de escravos, era a perda de uma mercadoria;o "liberto", no entanto, continuava sofrendo perseguição na sociedade. Podemos até dizer que a origem do racismo é o 13 de maio. Logo em seguida à libertação, veio a Proclamação da República. Aí começou o bloqueio econômico sistemático ao negro "liberto".

Atualmente, o negro continua discriminado social e economicamente. Ele é preterido. Tanto que é maioria nas portas dos hospitais, constitui a maioria da população de rua, bem como a maioria da população carcerária.

O negro também não tem acesso à moradia. Na área da construção civil, não se podem construir casas baratas – elas possuem um preço histórico, imposto pelos descendentes dos mercadores de escravos, que são, em sua maioria, os proprietários e empregadores de hoje. Quando se procura solucionar o problema pela via política, o caminho fica muito longo, muito demorado: primeiro elabora-se o projeto de lei, que se arrasta enquanto é debatido. Décadas mais tarde, aprova-se ou rejeita-se a lei.

Apesar de o 13 de maio marcar a libertação dos escravos, para nós, negros, o dia da morte do líder Zumbi (20 de novembro) é uma data mais significativa – simboliza a resistência, a democracia e a visão do futuro que podemos ter um dia.

Cozinha na Roça, foto de Victor Front, 1861. A vida dos negros no campo era bem mais difícil do que na cidade

 
Vivaldo Benvindo dos Santos - Diretor da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ileaê, de Salvador, Bahia.

Não reconhecemos a data do dia 13 de maio porque não existiu abolição. Isso é uma farsa. O que aconteceu foi um interesse comercial, uma pressão dos países estrangeiros que estavam interessados em fazer comércio com o Brasil. Na verdade, a opressão continua até os dias de hoje. A única data que comemoramos é o dia 20 de novembro, a morte de Zumbi dos Palmares, dia de reflexão e da resistência negra. No Brasil inteiro comemora-se esta data. Estamos batalhando para transformar esse dia num feriado nacional.

Lauro Cornélio da Rocha - Coordenador pedagógico da Escola Municipal de Ensino Fundamental de Arthur Alvim, São Paulo, capital.

O 13 de maio deve ser dia de denúncia, não de comemoração. A lei tem uma importância institucional, mas não mudou a vida do negro. Continua o racismo, a falta de moradia e de atendimento à saúde. Falta também visibilidade: nos livros didáticos, a proporção entre personagens brancos e negros é de 14 para um e o negro, normalmente, é apresentado em condições subalternas. Segundo dados da revista Raça, existem no Brasil sete milhões de famílias negras de classe média, contudo não se vê o negro nas novelas. A autoestima fica rebaixada quando você não aparece.

Na época da promulgação da Lei Áurea, apenas 6% ou 7% da população negra permanecia escrava. A maioria já havia conquistado a liberdade, seja por cartas de alforrias, seja por conquistas próprias. A Lei foi assinada pois não havia mais jeito, foi uma conquista. O movimento abolicionista estava muito forte. Em todas as regiões, os escravos abandonavam o campo, concentrando-se nas cidades, desorganizando toda a economia do país.


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