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As raízes profundas da corrupção

No Brasil, várias expressões são usadas de maneira corriqueira para substituir a palavra corrupção. Jeitinho, mamata, jabá, negociata, esquema e maracutaia são apenas algumas delas. Mas qual o real significado da palavra corrupção?

Derivada do latim corruptus, ela possui um leque diverso de significados que remetem à sua origem: “quebrado em pedaços”, “apodrecido”, “pútrido”, entre outros. Por consequência, o verbo corromper, originariamente, significa tornar pútrido, podre.

Segundo o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), pode-se identificar uma mudança significativa no sentido da palavra corrupção ao longo da história. Ele identifica dois sentidos: um antigo e um moderno.
 
Se hoje relacionamos corrupção quase estritamente ao desvio do dinheiro público por um administrador desonesto, na antiguidade o termo apresentava um sentido muito mais abrangente: ele estava relacionado com a degradação dos costumes em geral.

Para se ter uma ideia do que estamos falando, na República Romana era comum se falar em ‘corrupção dos costumes’. Um pai de família que não controlasse as mulheres a ele subordinadas estaria cometendo um ato corrupto. Assim, considerado infame, ele seria punido pelas autoridades morais.

Na república antiga, o bem comum era valorizado em detrimento do bem pessoal. Assim, a corrupção passava pela inobservância desse princípio. Para o filósofo, a corrupção moderna tem outra conotação.

Na modernidade, a figura do indivíduo é muito mais valorizada; assim, a liberdade individual e o individualismo são valores mais difundidos. Por isso, é muito mais comum hoje a ideia de ter benefício próprio em detrimento do coletivo do que antigamente. A consequência desse novo modo de pensar é a diminuição do espaço público e o aumento considerável da esfera privada.

Se antes do século 17 as sociedades em geral puniam aqueles que se aventuravam em adotar uma fé ou prática religiosa distinta da religião dominante, hoje, pode-se escolher ser
protestante, por exemplo, em um país oficialmente católico, como o Brasil.
 
No entanto, uma área em que se preservou o pensamento da coletividade é a dos temas que competem à política pública. Neste campo, ações corruptas em favor de benefícios particulares e privados são consideradas um desrespeito ao bem público, agindo diretamente contra o princípio máximo do regime republicano, ou seja, o do bem comum.

Origem na colonização


A corrupção no Brasil tem raízes profundas na nossa história, que estão associadas à formação da nação. O modelo de Estado e sociedade que se desenvolveu no Brasil foi o baseado na  política  de nossos colonizadores portugueses. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil, aborda a formação histórica e social de nosso país e cita uma herança rural e patriarcal baseada no personalismo.

 
Esses elementos produziram na mentalidade de nosso povo uma dificuldade de separar o público do privado e de criar regras impessoais de sociabilidade. No Brasil, a ‘coisa pública’ sempre foi tratada como 'coisa nossa', e há uma enorme dificuldade de convivência social a partir de normas impessoais. É nesse cenário - que o autor chama de ‘cordialidade’ - que está, na visão do pensador, a raiz da corrupção.








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