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Ciências Humanas e suas Tecnologias.  

Heráclito de Éfeso: physis = fogo



Como se viu, os três filósofos pré-socráticos da Escola Jônica apresentados anteriormente estavam preocupados com o problema da physis. Com Heráclito de Éfeso não foi diferente; contudo, ele leva essa discussão mais a fundo e avança no pensamento de que as coisas estão em constante transformação.

Para demonstrar essa ideia, o filósofo concebeu um exemplo muito interessante e que hoje é bastante popular. Segundo ele, um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio. Isso porque, quando se entra pela segundo vez, tanto o rio quanto o homem já não são os mesmos de antes. Rio e homem mudam incessantemente.

Assim, para ele, nada é imutável: tudo se modifica, tudo se move, 'tudo flui'. A única exceção dessa regra seria, segundo ele, o próprio movimento, ou seja, a mudança é algo que permanece inalterado. Podemos pensar isso da seguinte forma: tudo muda, exceto o fato de que tudo muda.

Ainda para Heráclito, a transformação ou a modificação de todas as coisas ocorreria por meio de um interessante jogo dos contrários, ou melhor, de uma perene alternância entre elementos opostos: o amargo que se torna doce, o doce que se transforma em amargo, o frio que esquenta, o quente que se torna frio etc.

A realidade, por sua vez, ocorreria não em um dos polos dessa relação de opostos, ou seja, a realidade não é nem o doce, nem o amargo; nem o quente, nem o frio; nem o alto, nem o baixo. Ela é a síntese desses contrários. Isso porque, para ele, os opostos coincidem: a mesma ladeira pode levar à subida quanto à descida; a água que agora é quente, mesmo depois de transformar-se em fria, continuará sendo água. Para melhor entender do que Heráclito estava falando, pense em um círculo e observe que nele o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem.

Ladeira do Pelourinho, em Salvador (BA). Subida ou descida? Depende de onde se parte
Se nunca ficássemos doentes, jamais saberíamos o significado e o valor da saúde; se não existissem as guerras, não compreenderíamos a paz; sem conhecermos o amargo, jamais valorizaríamos o doce. Ao pensar nessas proposições, Heráclito imaginou que sem a constante relação entre os opostos o mundo simplesmente não existiria.

Este filósofo pré-socrático também observou que as constantes transformações dificultam nossa percepção sobre as coisas; as observamos como se elas fossem estáveis e permanecessem sempre as mesmas. Isso porque, segundo ele, nossos sentidos não conseguem alcançar o ritmo acelerado de transformação do mundo ao nosso redor. Apenas pelo pensamento, por meio do exercício de análise, podemos ter noção das mudanças que estão continuamente ocorrendo.

Cabe ainda uma questão: segundo Heráclito, qual seria o princípio de todas as coisas? O que representava a physis para ele? Na frase abaixo, ele nos dá alguns indícios para respondermos a essas perguntas.

“Este mundo, que é o mesmo para todos, não foi criado por qualquer dos deuses ou dos homens, mas foi sempre, é e será fogo eternamente vivo que com ordem regular se acende e com ordem regular se extingue” (Heráclito de Éfeso)



Heráclito pensava no mundo a partir da forma dinâmica do fogo, que é utilizado por ele como princípio para explicar todas as transformações presentes na realidade. Ele parte da concepção de que do fogo tudo nasce e pra ele tudo retorna. O filósofo define então dois caminhos de transformação percorridos pelo fogo: um para baixo e outro para cima.

De acordo com Heráclito, quando condensado, o fogo passaria por um estágio de umidificação, transformando-se em água. Esta água, por sua vez, se solidificada, seria transformada em terra, da qual nascem todas as coisas. Esse caminho percorrido pelo fogo foi denominado movimento 'para baixo'. Se, por sua vez, a terra fosse derretida, obteríamos água que, posteriormente, poderia ser transformada em vapor e, por meio da rarefação, poderia chegar novamente à forma do fogo. Esse caminho ficou conhecido como movimento 'para cima'. Foi com essas ideias que Heráclito relacionou physis e fogo.


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