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Mitos: cosmogonias e teogonias

Segundo a filósofa brasileira Marilena Chaui, se a grande questão do mito estava em narrar a origem do mundo e do que nele existe, utilizando para isso histórias de lutas, alianças e relações sexuais entre os deuses, podemos dizer que os mitos operam a partir de genealogias e, desse modo, eles se constituem em cosmogonias e teogonias. Mas o que isso significa?

Antes de entrarmos na definição desses termos, desenvolva um pequeno exercício de reflexão e responda: o que eles têm em comum?

Se você observou que “gonia” encontra-se na raiz desses dois termos, seu exercício de reflexão deu bom resultado. Isso significa dizer que essas duas palavras possuem uma mesma raiz etimológica, certo?

Resta, portanto, sabermos os significados particulares não só de “gonia”, mas também de “cosmo” e “teo”. Então, vamos a eles!

“Gonia” tem sua origem em duas palavras gregas: 1) o verbo gennao, que significa gerar, fazer nascer, fazer crescer e, 2) o substantivo genos, ou seja, descendência, espécie, gênero. Já a palavra “cosmo” tem seu sentido ligado à ideia de mundo organizado, ordenado.  “Teo” (do grego theos), por sua vez, relaciona-se com deuses, seres divinos ou coisas divinas. Como resultado, temos, portanto:





Os documentos de cosmogonia e teogonia mais importantes e antigos dos gregos são os escritos de Hesíodo e Homero. Provavelmente, Hesíodo foi o primeiro poeta a procurar um princípio para as coisas.

Em um de seus escritos mitológicos, ele afirma: “primeiro que tudo foi o caos, depois a terra de amplo seio (...) e o amor, que sobressai entre os deuses imortais.” Essa frase coloca em foco uma questão filosófica, já que destaca o problema do surgimento das coisas e daquilo que as produziram. Mas, se o problema é filosófico, a resposta dada pelo poeta é mítica.

Em sua
obra denominada Teogonia, Hesíodo narra a formação do mundo a partir da origem dos deuses. Apesar disso não ser uma novidade, a vantagem desse poeta está em narrar de maneira sistematizada, através da escrita, grande parte dos mitos da criação, organizando-os de acordo com uma sequência lógica.

Isso possibilitou algo totalmente inovador, pois uma vez colocada no papel, a discussão acerca dos mitos tornou-se mais palpável e desenvolveu-se mais amplamente. Assim, os mitos foram a matéria-prima inicial do pensamento filosófico.

Isso, contudo, nos coloca diante de uma questão: a Filosofia, ao nascer, rompe radicalmente com os mitos ou ela empreende uma transformação gradual deles? Em outras palavras, ela se distancia ou dá continuidade à cosmogonia e à teogonia? No quadro abaixo você encontra três repostas a essa pergunta. Cada uma delas data de um momento específico da história mais recente da Filosofia. Vejamos:

Contexto Histórico
Pensamento da ÉpocaResposta Dada
Fim do século XIX e início do século XX Nesse período, vigorava um amplo otimismo acerca da capacidade técnica e científica do homem. Acreditava-se que a Filosofia tinha seu nascimento atrelado a uma ruptura total com os mitos. Ela seria, portanto, a primeira explicação científica da realidade ocidental.
Meados do século XXEstudos históricos e antropológicos ganham destaque nesse período. Neles, evidenciou-se a importância dos mitos para a cultura e para a organização social das mais diversas sociedades. O mito estava envolvido em toda a maneira de pensar e de sentir das sociedades.Acreditava-se que a Filosofia nasceu não de uma ruptura completa, mas desenvolveu-se gradualmente a partir do interior dos próprios mitos, realizando um processo de racionalização deles.
Século XXIAs duas respostas anteriores são consideradas bastante exageradas e fechadas em si.A resposta que vigora nos dias atuais, parte da afirmação de que a Filosofia, observando suas contradições, analisa racionalmente os mitos e suas narrativas. A filosofia transforma então os problemas mitológicos e os coloca diante de novas e diferentes explicações.
 

A Filosofia nasceu, portanto, com o intuito de buscar uma explicação racional para as questões principais levantadas pelo mito, a saber: a origem do cosmos (kósmos). Ela busca uma explicação racional para a existência do mundo e para suas diversas transformações e permanências.

Assim, diferentemente dos mitos, que são cosmogônicos e teogônicos, a Filosofia, ao nascer, tem caráter cosmológico. Dessa forma, três diferenças básicas entre a Mitologia e a Filosofia podem ser apontadas:





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