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Heitor Villa-Lobos

As músicas e os poemas também são formas de descrição. Veja o exemplo de uma música de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que recebeu um poema de Ferreira Gullar e foi gravada por vários cantores.


 

Villa-Lobos teve suas primeiras aulas de música com seu pai e, ainda vivo, foi considerado o maior compositor das Américas.

A seguir, ouça
Trenzinho caipira, de Heitor Villa Lobos.




Essa música é parte da composição de Villa-Lobos, denominada Bachianas Brasileiras nº 2. A música lembra o movimento de uma locomotiva.

Depois de conhecer as músicas de Villa-Lobos, o poeta Ferreira Gullar se encantou com a peça Bachianas nº 2 e, em um relato ao jornal Folha de
São Paulo, em 6 de dezembro de 2009, contou como tudo aconteceu, até ocorrer a primeira gravação de Trenzinho caipira, já com o seu poema.

Durante os anos que vivi em São Luís, não me lembro de ter ouvido alguma música de Villa-Lobos. Dos 18 aos 20 anos, fui locutor da Rádio Timbira que, senão (sic) me equivoco, raramente transmitia programas de música erudita. Lembro-me de programas de música popular brasileira, de música latino-americana (especialmente boleros) e de música norte-americana, que nos chegava sobretudo através dos musicais da Broadway.

Foi Thereza, minha falecida companheira, quem me revelou a música de Villa-Lobos, depois que nos casamos e passei a ouvir os discos que vieram com ela para nossa casa. Ela era apaixonada pela música dele, que cantava no coro da escola pública onde estudara. Carioca da Tijuca, pertenceu à geração que aprendera a cantar "O Canto do Pagé", em grandes comemorações oficiais no Campo do Vasco da Gama.

"Ó manhã de sol, Anhangá fugiu." Sei é que, certa tarde, sozinho no apartamento (na antiga rua Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, em Ipanema), pus na vitrola um disco com as "Bachianas" e ouvi, pela primeira vez, a do trenzinho do caipira.

Entrei em transe. É que, quando menino, meu pai, que fazia comércio ambulante, me levava nas viagens de trem entre São Luís e Teresina. O trem saía de madrugada e, ao amanhecer, cortava o Campo dos Perizes, um vasto pantanal, povoado de garças, marrecos, nhambus, pássaros de todo tamanho e cor. Eu ficava deslumbrado, a cada viagem. Deslumbramento esse que voltou quando ouvi a "Tocata", da "Bachiana nº 2". Tive o ímpeto, naquele instante, de pôr letra na música, mas não consegui. E não tentei uma vez só, não, mas várias, ao longo dos anos, sem resultado.



Pois bem, em 1975, ao escrever o "Poema Sujo", em Buenos Aires, evoco aquelas viagens que fazia com meu pai e, então, enquanto, antesera a música de Villa-Lobos que me fazia lembrar das viagens, agora elas é que me fizeram lembrar da "Bachiana n º 2" e, assim, a letra que não conseguira escrever em 20 anos, escrevi em 20 minutos:

Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar
lá vai ciranda e destino
cidade e noite a girar..."

Não escrevi essa letra pensando que ela um dia seria gravada;escrevia-a porque aquela reversão da lembrança foi um fator a mais de emoção, um choque mágico, que se incorporava ao poema. Por isso, pus ali uma indicação meio irônica: "Para ser cantada com a "Bachiana nº 2", "Tocata'". Mas surgiu alguém que levou a sério a indicação.

O poema foi publicado em 1976, pela editora Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, e lançado numa noite de autógrafo sem o autor. Um ano depois, volto para o Brasil e sou procurado por Edu Lobo, que queria gravar o "Trenzinho do Caipira", com minha letra. Encontramo-nos na Leiteria Mineira, que era ali na rua São José, no centro do Rio, perto da sucursal do "Estadão", onde eu trabalhava. Ele fez o arranjo e gravou o "Trenzinho", que passou a tocar muito no rádio e, verdade seja dita, contribuiu para popularizar a "Bachiana nº 2", talvez a que mais se ouve atualmente. É que a letra facilita a comunicação com as pessoas pouco habituadas a ouvir música instrumental. O mérito não é meu, claro, mas dessa obra-prima que ele compôs, acrescida, então, da interpretação de Edu.

Mas, na hora de obter a autorização para gravar a música com minha letra, Edu se deparou com um problema: a viúva do maestro alegou que adotara como norma não dividir o direito autoral com quem pusesse letra em música de Villa-Lobos. O que me pareceu razoável, já que muita gente poderia valer-se da fama do compositor para pôr qualquer letra em suas músicas e ganhar dinheiro com isso. Não foi o meu caso, como narrei aqui. De qualquer modo, isso não impediu que Edu gravasse a música. Aliás, para que eu não ficasse sem nada ganhar, ele generosamente me fez parceiro de uma das músicas, que era de sua exclusiva autoria. Aquela restrição valeu para o disco apenas, porque toda vez que o"Trenzinho" toca no rádio ou é cantado num show, recebo direito autoral. E, por ironia do destino, já aconteceu me pagarem quando tocaram a "Bachiana", sem a letra. Como se vê, a confusão é geral.

Por falar em confusão, aproveito a oportunidade para desfazer um equívoco, que se tornou frequente, com respeito a essa letra. Em vez de "correndo pelas serras do luar", como escrevi, põem "correndo pelas serras ao luar". É o lugar-comum desbancando a poesia. Num site do Villa-Lobos, insistem no erro. Isso lembra um poema meu em que escrevi: "cantando, o galo é sem morte". Um tradutor pôs: "cantando el gallo és imortal". Pensei: é que deve ter entrado para a Academia.

Fonte: FERREIRA, Gullar. Trenzinho do caipira. Folha de São Paulo. Caderno Ilustrada. São Paulo, 06 de dezembro de 2009. Disponível em: .


No vídeo a seguir, uma dessas gravações, a adaptação de Adriana Partimpim para a música de Heitor Villa-Lobos com o poema de Ferreira Gullar. Veja:







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