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Suicídio: uma questão social?




Durkheim observava as mudanças ocorridas em sua época de maneira positiva. Via com bons olhos a crescente diferenciação social e profissional dos indivíduos, bem como a diminuição da tradição e o aumento do domínio da razão e da ciência. Entretanto, admitiu que todos esses avanços não eram necessariamente motivos de felicidade e realização para o homem moderno.

Ele chega a essa conclusão ao constatar o aumento considerável nas taxas de suicídios da época. Durkheim preocupou-se então em estudar o que para ele seria um distúrbio patológico na organização da vida em sociedade. Para ele, a elevação do número de suicídio apontava para a seguinte questão: alguns dos órgãos responsáveis por manter a ordem social em pleno funcionamento não estavam exercendo devidamente suas funções.
Durkheim comparava a sociedade a um organismo vivo cujas partes estão em constante funcionamento e onde cada uma cumpre uma função específica. As partes desse organismo social seriam, por exemplo, a escola, o Estado, a família e a igreja. Se uma dessas partes falha no cumprimento de suas tarefas, todo o funcionamento da vida em sociedade é posto em risco. A sociedade adentraria, assim, em um estado patológico, como quando um uma pessoa fica doente.

Esse estado patológico é trabalhado por Durkheim através do conceito de anomia, que, em resumo, seria caracterizado pela falta ou desintegração das normas sociais. Um problema que a Sociologia deveria buscar entender e resolver.

Para ele, ainda que o individualismo da vida moderna seja desejável, a sociedade deve tomar precauções para que a consciência coletiva não seja totalmente comprometida e para que o indivíduo não exija mais do coletivo do que ele pode oferecer.

O ponto central dessa discussão seria, portanto, encontrar um estado de equilíbrio entre as consciências individuais e a consciência coletiva, pois, de seu desequilíbrio poderiam surgir problemas, a exemplo da elevação do número de suicídios em uma determinada época.



Ao fazer essa afirmação, Durkheim retira o suicídio do domínio individual e o coloca como uma questão social. O suicídio, que aparentemente seria um problema de ordem psíquica e, portanto, restrito ao domínio da Psicologia, é levado por ele para a esfera sociológica.

Assim, Durkheim define suicídio enquanto “todo caso de morte provocado direta ou indiretamente por um ato positivo ou negativo realizado pela própria vítima e que ela sabia que devia provocar esse resultado”.

Nessa citação, percebemos que Durkheim concebe a existência de duas formas de suicídio: uma positiva e outra negativa.

A forma positiva pode ser exemplificada na ação de um indivíduo que dispara um tiro em sua própria cabeça. A forma negativa refere-se, por exemplo, a um indivíduo que realiza uma greve de fome que, em longo prazo, acarretará sua morte; ou a um capitão que se recusa abandonar o navio em pleno naufrágio.

Na forma positiva, o suicídio ocorre por uma ação direta. Já na forma negativa, a ação que provoca a morte é indireta e constantemente envolve heroísmo e orgulho.

Durkheim realiza essa distinção e, para justificar seu estudo sociológico, concebe que a taxa de suicídio é algo constante em todas as sociedades, mas que apresenta variações que devem ser entendidas. Por exemplo, por que entre os militares essa taxa é mais elevada? Ou, por que a taxa registra crescimento tanto em momentos de crise econômica quanto em situações de prosperidade financeira?

Para responder a essa indagações, Durkheim constatou a existência de três tipos distintos de suicídio: o egoísta, o altruísta e o anômico. Vejamos cada um deles:

  • Suicídio egoísta:

Ocorre quando o indivíduo se desvincula das instituições (família, igreja, escola etc.) e dos grupos sociais por vontade própria. Ele resolve viver sem regras e embalado pelos seus próprios desejos e vontades. Sem controle social, esses desejos são ilimitados e, por conseguinte, não podem ser supridos por completo, pois esbarram nas vontades e regras da própria sociedade. Frustrado e com desejos irrealizáveis, esse indivíduo resolve cometer o suicídio.

  • Suicídio altruísta:
Neste caso, o indivíduo encontra-se extremamente vinculado às instituições e ao seu grupo social. Ele valoriza muito mais a sociedade do que a sua individualidade, chegando a abrir mão de sua própria vida para manter intactos os imperativos sociais. Vejamos alguns exemplos marcantes de suicídio altruísta:

1)    Os terroristas do 11 de setembro: eles estavam ligados de tal modo ao seu grupo social, nesse caso o Al Qaeda, que negaram sua própria vida decidindo morrer por uma causa coletiva.

2)    As viúvas indianas: imbuídas por uma longa tradição, elas decidem serem queimadas junto aos corpos de seus falecidos maridos. Elas negam seu direito à vida, mas preservam os costumes de seu grupo social.

Assim, enquanto no suicídio egoísta os laços que unem o indivíduo à sociedade foram desfeito, neste segundo, esses laços estão atados com fortes nós, levando o indivíduo a agir de acordo com o que espera a coletividade.

  • Suicídio anômico:
Segundo Durkheim, o suicídio anômico é o mais comum nas sociedades modernas e caracteriza-se pelo enfraquecimento dos órgãos que dão bom funcionamento ao corpo social, como, por exemplo, quando uma criança ou idoso é abandonado por sua família. Quando esse tipo de suicídio ocorre não é porque o indivíduo decidiu se afastar de seu grupo social, nem porque resolveu se sacrificar para mantê-lo intacto. O suicídio anômico ocorre por falhas no próprio funcionamento social. Costumes e tradições, enfraquecidos, deixam de abraçar e de dar segurança ao indivíduo.

Em momentos de crise financeira, ou ao contrário, de prosperidade, é muito comum encontrarmos esse tipo de suicídio descrito por Durkheim. Nos dois momentos, os indivíduos estão em constante competição, o que coloca a coesão e a solidariedade social em xeque.

O exemplo contrário pode ser encontrado nos momentos de conflitos e guerras, em que as taxas caem. Isso ocorre porque nessas ocasiões, o sentimento de solidariedade e coesão social é aflorado, tendo em vista vencer inimigos externos. Os órgãos que dão funcionamento ao corpo social são valorizados e entram em pleno exercício de suas funções.

Em momentos de crise econômica ou prosperidade, os laços sociais e costumes dão lugar à competição entre os indivíduos. A sociedade entra em um estado patológico e aumentam as taxas de suicídio anômico
Em momentos de grandes tragédias ou guerras, as taxas de suicídio tendem, segundo Durkheim, a cair. Isso porque os laços sociais e os costumes são valorizados frente ao inimigo externo. As instituições sociais, por sua vez, buscam melhor desempenhar suas funções para manter a coletividade e a solidariedade social

Por fim, Durkheim resume seu detalhado estudo acerca das taxas de suicídio da seguinte forma: “os suicídios são fenômenos individuais, cujas causas são, contudo, essencialmente sociais.” As “correntes suicidógenas”, como ele denomina, têm origem na coletividade, e não no indivíduo. É bem verdade que alguns dos suicidas já possuem predisposições psicológicas para tal ato. Mas Durkheim concebe que essas predisposições, como distúrbios neurológicos, são também causadas pela própria sociedade e pelas circunstâncias sociais.

Assim, se encontramos em uma sociedade poucos casos de suicídios, podemos presumir que eles tenham sido causados por fatores psicológicos e, portanto, devem ser estudados pela Psicologia. Contudo, se essa taxa ganha proporções maiores, como o ocorrido na época de Durkheim, deve-se atentar para os fatores sociais que provocaram essa elevação. Esses fatores irão variar de sociedade para sociedade, de grupo social para grupo social.








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