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Ação social: o objeto de estudo da sociologia weberiana

Air0ne/Shutterstock

As principais teorias sociológicas do século XXI destacaram o estudo das manifestações coletivas como o ponto chave para se entender uma sociedade. O positivista Durkheim focou seus estudos na análise dos fatos sociais, enquanto o materialista histórico Marx destacou a questão das classes sociais. Weber, mais uma vez, seguiu um caminho diferente das duas grandes teorias.

Não que Weber não estivesse interessado em compreender manifestações coletivas, mas, segundo ele, essas manifestações têm origem nas ações individuais. Nesse sentido, seu grande objetivo era a compreensão da sociedade a partir daquele que lhe dá sentido, ou seja, o homem. Só a partir da análise do micro poderíamos, de acordo com sua perspectiva, compreender o macro.

A lógica que Weber seguia era a seguinte: se meu objetivo é compreender, por exemplo, o papel de uma escola em uma comunidade, é necessário que eu compreenda as ações daqueles que formam essa escola, ou seja, daqueles que a fazem funcionar.

Com isso, Weber se junta a outros pensadores de sua época, como Sigmund Freud (1856-1939), e devolve ao homem o papel de indivíduo e de agente social. Esse indivíduo deixa de ser um ser passivo e transforma-se no ator principal do cenário social; ele se transforma em fonte de conhecimento.

Assim, além de sua perspectiva histórica, a sociologia weberiana apresenta outra inovação, a saber: um novo objeto de estudo sociológico. Esse objeto de estudo seriam as ações sociais. Podemos dizer que ação social é toda ação cujo sentido subjetivamente pensado pelo ator social, ou seja, pelo indivíduo, faz referência a outro indivíduo ou grupo. Vejamos essas características de maneira mais detalhada:

•    Toda ação social é dotada de um sentido. Ela é intencional e, portanto, não se confunde com um reflexo;

•    Esse sentido é construído de maneira subjetiva pelo próprio agente da ação. Não é a sociedade que o impõe, é o indivíduo que escolhe agir de determinada maneira;

•    Pode ser uma conduta pública ou privada;

•    Para ser social, é necessário que o sentido da ação esteja voltado para um “outro”. Esse “outro” pode ser tanto um indivíduo isolado quanto um grupo de indivíduos.

Tendo essas características em mente, Weber apresenta um exemplo bastante significativo para diferenciarmos uma ação qualquer de uma ação social. Diz ele:

“Nem todo tipo de contato entre pessoas tem caráter social, senão apenas um comportamento que, quanto ao sentido, se orienta pelo comportamento de outras pessoas. Um choque entre dois ciclistas, por exemplo, é um simples acontecimento do mesmo caráter de um fenômeno natural. Ao contrário, já constituiriam 'ações sociais' as tentativas de desvio de ambos, o xingamento, a pancadaria ou a discussão pacífica após o choque.” (Max Weber)


Ao definir essas características da ação social, Weber percebeu que ela pode ser dividida em quatro diferentes tipos: ação social racional com relação a um objetivo, ação social racional com relação a valores, ação social tradicional e ação social emotiva ou afetiva. Vejamos quando cada uma delas acorre.

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1) Ação racional com relação a um objetivo: é uma ação que envolve bastante racionalidade e lógica. O indivíduo tem um objetivo e calcula os meios necessários para alcançá-lo. É, por exemplo, a ação de um atleta que ao estudar seu oponente identifica os aspectos em que precisa melhorar para vencê-lo e decide treinar mais horas por dia. É também a ação de um pai que, após analisar sua renda, decide diminuir seus gastos mensais em 30% visando comprar um carro de presente para seu filho.

A ação do atleta pode nem resultar em sua vitória e o pai pode ter feito os cálculos errados, de modo que o dinheiro economizado só dê para comprar uma moto. Mas, nos dois casos, o insucesso não descaracterizou a ação racional com relação a um objetivo. O fato de eles não alcançarem suas metas não retira da ação a busca por um objetivo e sua racionalidade.

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2) Ação racional com relação a valores: neste caso, o ator da ação age racionalmente não para alcançar um objetivo, mas para preservar um valor. Um capitão que, mesmo sabendo do perigo iminente de naufrágio, decide não abandonar o navio para preservar sua ideia de honra, acabou por praticar uma ação racional com relação a valores. É também o caso de mártires que preferem enfrentar a morte que abdicar de suas ideologias.

À primeira vista, esse tipo de atitude pode parecer irracional para muitos de nós. Os valores defendidos pelo ator da ação podem nos parecer banais ou sem sentido, mas devemos lembrar que é o indivíduo que dá sentido à sua ação, e não o observador. Ele, racionalmente, decide correr riscos, inclusive de morte, para manter seus valores intactos.

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3) Ação afetiva ou emotiva: aqui, não estamos falando de objetivos a serem alcançados nem de valores a serem preservados. Nesse caso, o que está por trás da ação do indivíduo é seu estado emocional, seu humor. Podemos dar o exemplo do jogador de futebol que no calor do jogo sofre uma falta e reage dando uma cabeçada no adversário. Ele demonstra a perda do controle emocional e, sem pensar nas consequências de sua ação, se deixa levar pela emoção.

4) Ação tradicional: O indivíduo age imbuído por alguma tradição. Pode ser um costume enraizado ou hábitos que, em muitos casos, o indivíduo não sabe explicar ou não sabe dizer quando foram iniciados. Ele não racionaliza sua ação; não procura saber, por exemplo, quais as suas consequências.

Como exemplo, podemos citar o caso de um adolescente que cresceu observando os pais fazerem o sinal da cruz quando passam por determinadas situações. Ele segue a tradição muito mais por um costume do que pelo conhecimento do significado dessa ação. Talvez, se for questionado, ele nem saiba dizer qual a simbologia inscrita no ato de fazer o sinal da cruz diante de um santo.

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Apesar dessa classificação, Weber faz uma ressalva importante: as condutas humanas não podem ser classificadas de maneira exata, como se estivéssemos tratando de dados estatísticos.

Sendo assim, os quatro tipos de ação social não são formas puras, encontradas de maneira isolada na realidade. São, na verdade, o que Weber chamou de tipos ideais, ou seja, uma criação abstrata feita com base na análise dos casos particulares. Desse modo, a conduta de um indivíduo pode, por exemplo, entrar na classificação de dois tipos de ação social ou mais. Vejamos um exemplo.

Um cientista decide empreender uma pesquisa acerca dos motivos que levaram um grupo de pessoas à depressão. Para isso, ele estabelece uma metodologia, ou seja, os meios pelos quais ele chegará a resultados cientificamente válidos e verdadeiros. A ação do cientista é, portanto, racional com relação a um objetivo; isto é, descobrir a verdade acerca das causas de uma doença, utilizando para isso procedimentos lógicos.

Mas a conduta do cientista é também uma ação social com relação a um valor, que neste caso seria a verdade. A verdade é um valor construído ao longo da história em diferentes contextos sociais e culturais.

Apesar de muitos criticarem Weber, acusando-o de preocupar-se em demasia com o micro (o individual), em detrimento do macro (o coletivo), ele não deixou de voltar sua visão para os acontecimentos da coletividade. Ainda que a ação social seja seu ponto de partida, Weber preocupou-se também com as relações sociais. Mas, quando uma ação social dá lugar para uma relação?

Na ação social, o indivíduo estabelece o sentido de seu ato e volta sua ação para um “outro”, que não necessariamente precisa estar ciente disso. Em contrapartida, para que ocorra uma relação social é necessário que o sentido da ação seja compartilhado por dois ou mais indivíduos.

Um indivíduo que escreve e manda uma carta para um deputado solicitando que ele cumpra suas promessas de campanha acabou por realizar uma ação social. Mas, se ao invés de uma carta temos um abaixo assinado com a participação de mil cidadãos, temos uma relação social, em que  vários indivíduos compartilharam o sentido de suas ações.

Portanto, a relação social é uma conduta de característica plural na qual o sentido da ação é reciprocamente compartilhado. Em resumo, nela existe a probabilidade de que uma determinada ação social tenha seu sentido compartilhado por uma diversidade de atores sociais, como no caso do abaixo assinado.


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