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O protestantismo e o espírito do capitalismo

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Matinho Lutero, grande nome da Reforma Protestante


Assim como Marx, Weber buscou compreender o capitalismo e suas transformações sociais, políticas e econômicas. Contudo, não o fez seguindo o mesmo caminho e não propôs uma revolução que decretasse seu fim. Enquanto Marx enxergava no surgimento do capitalismo apenas questões econômicas e produtivas, Weber abriu sua mente para a possível existência de outras causas e de outros fatores.

Weber via no capitalismo um sistema marcado pela existência de empresas que organizam a produção e o trabalho de maneira racional visando, acima de tudo, a obtenção do maior lucro possível. Racionalidade e lucro seriam, portanto, as duas características básicas e inseparáveis do sistema capitalista.

Ao fazer essas constatações, Weber se depara com um questionamento cuja resposta vai permear uma de suas obras mais conhecidas e lidas em todo o mundo, A ética protestante e o espírito do capitalismo. Essa grande pergunta pode ser resumida da seguinte forma: o que ocorreu de diferente para que o capitalismo nascesse na Europa e somente a partir do século XVI? Por que ele se desenvolveu na Europa e não em civilizações como Egito, China e Índia?

Como historiador, Weber constatou que essas civilizações apresentavam uma considerável economia monetária, certos avanços tecnológicos e indivíduos ávidos por obter mais dinheiro. A busca por maiores rendas levou, também nessas civilizações, indivíduos a conquistarem e se aventurarem em novos territórios. Esses fatores, no entanto, não permitiram que essas civilizações desenvolvessem um sistema sequer parecido com o capitalismo.

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Diferentemente do que ocorreu nessas civilizações, no contexto europeu a busca pelo lucro passou a se desenvolver a partir da disciplina, da ciência e da contabilidade; em resumo, da racionalidade, e não apenas da coragem e da aventura.

Analisando essas diferenças e ao observar as estatísticas acerca dos capitalistas europeus, Weber chegou a um dado bastante revelador: entre os grandes homens de negócio, proprietários capitalistas e trabalhadores qualificados havia um grande número de protestantes.

Esses dados instigaram o pensamento científico de Weber, que passou a enxergar no contexto europeu uma relação inexistente nas demais civilizações: o protestantismo e a lógica capitalista.

Assim, a investigação weberiana passou a se desenvolver relacionando o impacto do pensamento protestante nas condutas individuais e, por conseguinte, na configuração da lógica capitalista moderna.

Weber passou a examinar as implicações das orientações religiosas na conduta econômica dos homens, avaliando de que forma a ética protestante, com destaque para a calvinista, contribuiu para o desenvolvimento desse sistema econômico.

Comparando os valores católicos e protestantes, ele chegou ao seguinte postulado: enquanto os primeiros pregavam valores ligados ao sacrifício, à renúncia e a uma vida de oração e de contemplação longe da usura, os segundos baseavam seus valores em questões como autodisciplina, vocação e dever para com o trabalho, poupança, acúmulo de riquezas e outros fatores que tenderam para o racionalismo típico do sistema capitalista.

Weber também fez outra constatação importante para sua análise: os protestantes tendiam a se envolver com ramos de estudos mais técnicos, destinados a ocupações comerciais e industriais. Os católicos, por sua vez, recebiam uma formação superior muito mais ligada às ciências humanas.

Dentro do calvinismo, uma das seitas mais importantes do protestantismo, pregava-se a ideia de que o homem não necessitava de intermediários ou de símbolos sagrados para chegar até Deus. Contudo, era necessário que ele exercitasse uma vida de devoção e de submissão à vontade divina.

Um indivíduo que conseguia manter uma vida terrestre bem sucedida apresentaria, segundo a crença, sinais de submissão à vontade de Deus. Para garantir os sinais de sua virtude, nada melhor que investir na atividade profissional, de modo que o trabalho assume o papel de vocação.

Desse modo, um empresário bem sucedido apresentava sinais de virtude e de elevada moral. Sua riqueza material, no entanto, não deveria ser gasta de maneira desregrada. A ostentação era amplamente condenada e a disciplina, a parcimônia e a discrição, valorizadas. Nesse sentido, os lucros obtidos eram gastos com o essencial e o restante poupado e reinvestido. Esse "reinvestir" era garantia da manutenção e do desenvolvimento de seu trabalho.

Saiba mais:

Durante o período medieval, o trabalho era considerado uma atividade de baixo escalão destinada àqueles econômica e culturalmente inferiores. O ócio era ostentado como uma virtude dos nobres, rodeados de etiquetas e riquezas. Enquanto os servos e camponeses se dedicavam ao trabalho, a atenção da nobreza deveria estar voltada para atividades ditas mais elevadas, como as artes. 


O comportamento ascético, ou seja, de negação dos prazeres mundanos e de valorização da virtude, era, para os protestantes, uma missão a ser cumprida da melhor maneira possível. Como consequência, temos o desenvolvimento de condutas sociais pautadas por maior racionalidade e o estabelecimento de empresas cujos controles da produção e das finanças passaram a seguir modelos científicos de contabilidade. Desse modo, a sociedade moderna conhece um estilo de vida totalmente novo e baseado em duas perspectivas anteriormente impensáveis de se conciliar: uma de sentido religioso, cuja fé no trabalho predominava, e uma de sentido econômico, baseada na acumulação de capital e no seu reinvestimento racional.

Weber não estava com isso dizendo que os protestantes formularam um novo estilo de vida com a intenção de desenvolverem também um novo modo de produção. A motivação desses indivíduos era tão somente religiosa, mas as consequências de suas ações não ficaram restritas a esse campo. Com isso, a análise weberiana também estava querendo mostrar que, apesar de muitas vezes o indivíduo estar consciente do sentido de sua ação, o resultado dela não pode ser controlado.

Apesar de deixar claro que o protestantismo não foi a única causa do surgimento do capitalismo – Weber admite que esse é um acontecimento de várias causas –, ele demonstra como a ascese religiosa foi fundamental para o desenvolvimento da mentalidade racional que está em sua base, sendo esse um fenômeno em sua origem, exclusivo da sociedade europeia.

Diferentemente de Marx, por exemplo, Weber demonstra que o capitalismo não pode ser visto exclusivamente como resultado de causas econômicas, mas também como um fenômeno de caráter sociocultural.





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