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Os sofistas, a phýsis e o nómos


A grande preocupação dos primeiros filósofos, os filósofos do período pré-socrático, era conhecer e explicar a origem e a transformação de todas as coisas que há no mundo. Após diversos questionamentos e teorias, eles chegaram à conclusão de que a força criadora de todas as coisas era a physis, a qual deveria ser descoberta e estudada.

Dentre as escolas filosóficas desse período e seus diversos filósofos, foi criada uma divergência acerca do que seria essa physis. Assim, se para Tales de Mileto o elemento formador de todas as coisas, ou seja, a physis, era a água, Heráclito de Éfeso considerava o fogo.

Os sofistas olhavam para a teoria acerca da physis com bastante desconfiança. A ideia dos primeiros filósofos de conhecer a origem das coisas, e desse modo chegar a um conhecimento totalmente verdadeiro acerca delas, era questionada. Para eles, a ideia da physis como uma força criadora que agia independentemente da ação humana era problemática e engessada. Vejamos os motivos que levaram os sofistas a pensarem dessa forma.

Apesar de admitirem o homem como um ser constitutivo da natureza, os sofistas concebiam que ele possuía características específicas que deveriam ser levadas em conta. Acreditavam que o foco da Filosofia deveria ser o homem, e não os aspectos cosmológicos, ou seja, de origem da natureza, tão discutidos até então. Assim, os sofistas ajudaram a mudar o ponto central do pensamento filosófico: se no período pré-socrático a Filosofia era de cunho naturalista, no período socrático ela se tornou antropológica.

Os sofistas vão trazer para o debate filosófico a ideia de nómos e deixar de lado a discussão acerca da physis. Mas, o que seria esse nómos?

Os sofistas eram homens viajados que tinham entrado em contato com diferentes culturas e costumes. Por isso, eles sabiam que certas questões do mundo não eram determinadas pela natureza, mas dependiam da ação e das decisões humanas.






O nómos era, então, a palavra usada para representar as práticas sociais estabelecidas pelo costume, pelas ações e pelas escolhas do próprio homem, e não pela natureza. Nómos era, portanto, uma máxima que possuía a aceitação dos membros de um grupo, a exemplo das leis escritas, da moral, da religião e da política.

Apesar de parecerem naturais, essas convenções eram, segundo os sofistas, produtos de cada sociedade. Assim, cada sociedade possui suas próprias convenções, seus próprios costumes. Para os sofistas, as diferenças de costumes que as diversas sociedades apresentavam era a prova de que nem tudo era determinado pela >physis, pela natureza.

Essa concepção fez surgir um debate muito importante para a Filosofia e despertou a crítica dos aristocratas de Atenas. A grande questão era: as leis têm essência natural ou são convenções estabelecidas pelos homens em cada sociedade?

Para os aristocratas, as leis, assim como os usos e costumes, eram elementos naturais que sempre existiram, e assim não poderiam ser modificados; eram superiores ao homem e sua vontade. Já para os sofistas, apoiados pelos democratas, as leis eram convenções criadas pela própria sociedade, de modo que cada agrupamento social desenvolvia as suas singularidades.
 
Quando questionados acerca das desigualdades sociais, os aristocratas respondiam que essas desigualdades eram naturais, e que cada homem deveria ocupar a posição que lhe foi determinada. Já os democratas, junto aos sofistas, concebiam que essas desigualdades eram resultados da própria ação do homem.



Os sofistas argumentavam que o homem não nasce sabendo as leis e os costumes que deve seguir. Isso lhe é ensinado ao longo de sua educação, e essa era mais uma prova da origem social – e não natural – das leis e dos costumes.




Os defensores da democracia e os sofistas ainda partilhavam da seguinte constatação: como a maioria dos costumes e das leis foi elaborada muito tempo atrás, sua origem se perde no tempo, dando-nos a sensação de que eles sempre existiram e que são independentes da vontade do homem. A verdade, no entanto, é que em algum momento eles tiveram uma origem social.

Por isso, em suas diversas viagens os sofistas se deparavam com grupos e sociedades cujos valores, costumes e comportamentos eram diferentes daqueles estabelecidos em Atenas e em outras regiões da Grécia Antiga.

Para os sofistas, as diferentes culturas era uma prova de que os costumes e as leis eram criações do homem e, portanto, poderiam ser modificados e reformulados pelo próprio homem


A partir da concepção de nómos, os sofistas elaboraram então o primeiro conceito de cultura. Cultura seria não apenas o acúmulo de variados conhecimentos, mas também a constituição do homem como membro de uma sociedade; seria sua formação social, para além de sua natureza.

Essas e outras questões levantadas pelos sofistas influenciaram diretamente os debates e as investigações filosóficas.

Sofística




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