Busca  
  A matriz negra   
Pluralidade Cultural  

Democracia racial

iStockphoto/Thinkstock
Harmonia "racial"?
Nos anos de 1930 do século XX, ou seja, concomitantemente com o movimento negro organizado que surgia representado pela FNB, surge também o conceito de “Democracia Racial”. Pelos levantamentos já existentes, tudo demonstra que Arthur Ramos, em 1943, utilizou pela primeira vez esse termo e, no ano seguinte, Roger Bastide, em um artigo para o Diário de S. Paulo em 31 de março, faz a sua primeira apropriação do termo. Apesar da obra inspiradora desse termo, Casa Grande e Senzala, ter sido criada em 1933 por Gilberto Freyre, ele não a utiliza em seus textos, mas a ideia permeia toda a sua obra, conforme afirma Antônio Sergio Guimarães:

"Gilberto Freyre (1933, 1936) não pode ser responsabilizado integralmente, nem pelas ideias nem pelo seu rótulo; ainda que fosse o inspirador da “democracia racial”, evitou, no mais das vezes, nomeá-la assim, tendo-a conservado, ademais, com um significado bastante peculiar."


Na academia essa expressão só irá aparecer nos anos de 1952, com uma série de volumes sobre estudos de relações entre Negros e Brancos no Brasil, patrocinados pela UNESCO, e Wagley declara: “O Brasil é renomado mundialmente por sua democracia racial”.

Pelo que se nota, Arthur Ramos, Roger Bastide e Wagley trouxeram para a literatura a expressão máxima que irá definir a partir de meados do século XX o pensamento de uma geração de cientistas sociais e de toda uma época.

Gilberto Freyre, conforme informamos, não cunhou o termo “Democracia Racial”, mas a travestiu utilizando a expressão “Democracia Social”, conforme discurso proferido em Lisboa em 1937, na conferência de título Aspectos da influencia da mestiçagem sobre relações sociais e de cultura entre portugueses e luso-descendentes.

Freyre afirmou:

"Há, diante desse problema de importância cada vez maior para os povos modernos – o da mestiçagem, o das relações de europeus com pretos, pardos, amarelos – uma atitude distintamente, tipicamente, caracteristicamente portuguesa, ou melhor, luso-brasileira, luso-asiática, luso-africana, que nos torna uma unidade psicológica e de cultura fundada sobre um dos acontecimentos, talvez se possa dizer, sobre uma das soluções humanas de ordem biológica e ao mesmo tempo social, mais significativas do nosso tempo: a democracia social através da mistura de raças."


Para que entendam o poder dessa ideia e o “conforto moral” que ele promovia a todos (Brancos e Negros), é elucidativa a declaração de Manoel Passos, presidente da União Nacional dos Homens de Cor, em 1942, aos “Negros Americanos”, conforme Guimarães descreve em seu artigo:

"Salientar o abandono a que está relegada a população negra, sua falta de instrução e seus costumes arcaicos, como responsáveis pela situação de “degenerescência” dos negros. Até mesmo o 'preconceito de cor', de que se ressentem os negros, é parcialmente atribuído à fraqueza moral das populações negras."


Como percebem, no início até entre os militantes negros essa utopia ideológica não era questionada. E em muitas situações, ela se perpetua viva e forte em grande parte do imaginário da população até os dias de hoje.

Anterior Início Próxima