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A dinâmica social negra e a branquitude

iStockphoto/Thinkstock
A doutora em psicologia social Lia Vainer Schucman aponta: brancos possuem privilégios simbólicos e materiais em relação aos não brancos
No artigo “Branquitude X branquidade: uma análise conceitual do ser branco”, a mestre em Ciências Sociais Camila Moreira de Jesus destaca:

O branco foi por toda história (auto)representado como o ser humano ideal, o que lhe conferiu ao longo de séculos uma situação de privilégio que é legitimada na sociedade até os dias atuais. Embora ao nível de produção acadêmica já tenhamos avançado bastante no que diz respeito à tentativa de desconstrução do estereótipo que, não por acaso, mantém o negro numa condição inferior, o espaço ainda mínimo que tem se dado para as discussões que ponham em evidência a real contribuição do branco para a existência deste quadro social tem favorecido a legitimação de um status quo que consegue se manter mesmo com o crescimento de políticas de enfrentamento ao racismo.”

Nesse sentido, podemos falar também sobre o movimento negritude, que surgiu no século XIX. W.E.B. Du Bois, historiador que teve importante papel na luta pela igualdade racial, revelou aos seus companheiros que o seu passado africano não era merecedor de vergonha alguma. Na obra Âmes Noires (Almas Negras, em português), ele declara: “Sou negro e me glorifico deste nome; sou orgulhoso do sangue negro que corre em minhas veias...”.

A luta e as reivindicações dos afros em todo o continente africano não é nenhum segredo. Por outro lado, o que muitos ainda desacreditam é que exista também uma branquitude, ou seja, uma suposta superioridade racial branca que, segundo a doutora em psicologia social Lia Vainer Schucman, resulta em privilégios simbólicos e materiais em relação aos não brancos. É claro que a forma de manifestação da branquitude é diferente, afinal de contas, o grupo dos brancos não é de forma geral o grupo socialmente oprimido pelo mundo afora. Mesmo assim, a branquitude existe.

A psicóloga Maria Aparecida Silva Bento é uma das pioneiras sobre esse tipo de estudo no Brasil. No artigo Branqueamento e branquitude no Brasil ela aponta a declaração de uma entrevistada norte-americana, que exemplifica o que seria a branquitude.
Hemera/Thinkstock
No Brasil, discussão sobre o legado da escravidão e os privilégios da população branca ainda é muito recente


“Como uma pessoa branca, me dei conta de que pensava sobre racismo como alguma coisa que coloca outras pessoas em desvantagem, mas não tinha pensado no aspecto de seus resultados, o privilégio dos brancos, o que colocava em vantagem... Eu via o racismo somente como atos individuais de agressão, não como um sistema invisível conferindo dominância para o meu grupo.”

Até o final do século XX o país ainda não havia enfrentado diretamente a discussão sobre o legado da escravidão e os privilégios que a população branca sempre teve em detrimento do povo negro. Nesse sentido, Maria Bento afirma:

“Evitar focalizar o branco é evitar discutir as diferentes dimensões do privilégio. Mesmo em situação de pobreza, o branco tem o privilégio simbólico da brancura, o que não é pouca coisa. Assim tentar diluir o debate sobre raça analisando apenas a classe social é uma saída de emergência permanentemente utilizada, embora todos os mapas que comparem a situação de trabalhadores negros e brancos, nos últimos vinte anos, explicitem que entre os explorados, entre os pobres, os negros encontram um déficit muito maior em todas as dimensões da vida, na saúde, na educação, no trabalho. A pobreza tem cor, qualquer brasileiro minimamente informado foi exposto a essa afirmação, mas não é conveniente considerá-la. Assim o jargão repetitivo é que o problema limita-se à classe social. Com certeza este dado é importante, mas não é só isso.”

O sóciólogo Florestan Fernandes também foi um dos pensadores que criticou o racismo. Na obra A integração do negro na sociedade de classes, volume I, ele diz: "A escravidão deformou o seu agente de trabalho, impedindo que o negro e o mulato tivessem plenas possibilidades de colher os frutos da universalização do trabalho livre em condições de forte competição imediata com outros agentes humanos". Assim, para Florestan a “omissão do branco” é que foi a responsável pela manutenção das desigualdades, e não as suas ações.

"No entanto, Florestan não aborda a deformação que a escravidão provocou na personalidade do branco. Aliás, a decisão de escravizar ou a omissão frente ao sistema escravocrata já carrega em si indiscutíveis sinais de deformidade moral e ética", conclui Maria Bento.





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