A crise nos anos 1980 | A gradual abertura política nos anos 1980, deflagrada no início da década e consolidada com o movimento pelas diretas-já em 1984, favorece o debate de temas antes proibidos, como a militância operária em Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman, e a tortura em Pra frente, Brasil (1982), de Roberto Farias. Nesse período, a produção de filmes nacionais ainda era financiada diretamente pela Embrafilme, entidade do governo. |
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Apesar da crise financeira do país e da concorrência acirrada dos filmes estrangeiros, que contribuíram para a queda na produção de filmes brasileiros, surgem novos cineastas, como Lael Rodrigues, diretor de
Bete balanço (1984); André Klotzel, realizador de
A marvada carne (1985); e Susana Amaral, diretora de
A hora da estrela (1985), que recebeu diversos prêmios internacionais.
A década é pontuada por boas produções, como
Cabra marcado para morrer (1984), documentário de Eduardo Coutinho;
Eu te amo (1980) e
Eu sei que vou te amar (1986), de Arnaldo Jabor;
Os anos JK (1980) e
Jango (1984), de Silvio Tendler;
Memórias do cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos;
O beijo da mulher aranha (1985), de Hector Babenco; e
Feliz ano velho (1987), de Roberto Gervitz. Nesses anos, o cinema infantil de Renato Aragão ganha espaço e público nos cinemas.
Um dos maiores sucessos dos anos 1980 é
Pixote, a lei do mais fraco (1981), de Hector Babenco, filme que sobrepõe o estilo documental ao ficcional para narrar a história de garotos que fogem da Febem (atual Fundação Casa). Com vários prêmios no exterior, o filme leva aos cinemas do país 2,5 milhões de espectadores.
Em meados dos anos 1980, as produções nacionais voltam-se para o mercado externo, em função da retração do público interno e da atribuição de prêmios estrangeiros a filmes brasileiros. Em 1985, Marcélia Cartaxo ganhou o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, por seu trabalho em
A hora da estrela.
Foi a primeira vez que uma atriz brasileira recebe um prêmio desse porte em um grande festival internacional. Em 1986, Fernanda Torres ganhou a Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes pela atuação em
Eu sei que vou te amar (1986). No ano seguinte, é a vez de Ana Beatriz Nogueira, com o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim (1987), como protagonista de
Vera, de Sérgio Toledo.
No final dos anos 1980, a Embrafilme, sem verbas, praticamente perde as funções de fomentadora do cinema nacional. Em 1988, o governo cria a Fundação do Cinema Brasileiro.
A retomada das produções na década de 1990 O cinema nacional entra nos anos 1990 com a crise do setor, que se acirrou no final da década de 1980. O fim da reserva de mercado para o filme brasileiro e a extinção da Lei Sarney e da Embrafilme, durante o governo Fernando Collor são a gota d'água para a produção cair a quase zero.
Em outra frente, a tentativa de privatizar a realização de filmes esbarra na falta de público e na concorrência dos filmes estrangeiros, da televisão e do vídeo. A saída para o impasse é a internacionalização da produção, como fez Walter Salles Jr. em
A grande arte (1991), uma coprodução Brasil-Estados Unidos.
A crise do cinema brasileiro no início dos anos 1990 se aprofunda a tal ponto que o 25º Festival de Brasília (1992) é adiado devido à ausência de filmes concorrentes. Para sobreviver, o Festival de Gramado de 1993 é internacionalizado, pois recebe apenas dois filmes brasileiros inscritos:
Capitalismo selvagem (1993), de André Klotzel, e
Forever, de Walter Hugo Khouri (1993), rodado com financiamento italiano.
Por outro lado, nesse mesmo ano, o Ministério da Cultura institui o Programa Banespa de Incentivo à Indústria Cinematográfica e o Prêmio Resgate Cinema Brasileiro, que estimulam a retomada da produção. As leis de incentivo fiscal e os financiamentos são destinados à realização, finalização e comercialização de filmes no país. As filmagens começam a surgir no Brasil e, aos poucos, novos filmes de diversas regiões são desovados.
Bilheteria expressiva
O marco dessa nova fase do cinema nacional – batizada de retomada – é o filme
Carlota Joaquina, princesa do Brazil (1994), de Carla Camurati. Rodado com orçamento modesto, até mesmo para o padrão brasileiro – R$ 630 mil, enquanto a média nacional é de R$ 1,2 milhão por produção –, o filme conseguiu bater o recorde de bilheteria adulta das décadas de 1980 e 1990, ao levar 1,3 milhão de espectadores aos cinemas.
Nesse período, destacam-se
Barrela – Escola de crimes (1990), de Marco Antônio Cury;
Não quero falar sobre isso agora (1991), de Mauro Farias;
A terceira margem do rio (1994), de Nelson Pereira dos Santos;
Alma corsária (1993), de Carlos Reichenbach;
Lamarca (1994), de Sérgio Rezende; e
Vagas para moças de fino trato (1993), de Paulo Thiago. A parceria entre televisão e cinema se realiza em
Veja esta canção (1994), dirigida por Carlos Diegues e produzida pela TV Cultura e pelo Banco Nacional.
Em 1994, novas produções, em preparação ou mesmo finalizadas, despontam:
O beijo 2348/72 (1994), de Walter Rogério;
A causa secreta, de Sérgio Bianchi;
Era uma vez, de Arturo Uranga;
Perfume de gardênia, de Guilherme de Almeida Prado;
O corpo, de José Antonio Garcia;
Mil e uma, de Susana Moraes;
Sábado, de Ugo Giorgetti;
As feras, de Walter Hugo Khouri;
Foolish heart, de Hector Babenco;
Um grito de amor, de Tizuka Yamasaki; e
O cangaceiro, de Carlos Coimbra, um remake do filme de Lima Barreto.
Prêmios no exterior
A segunda metade dos anos 1990 segue com filmes de grande qualidade, como
Terra estrangeira (1995), de Daniela Thomas e Walter Salles;
Guerra de canudos (1996), de Sérgio Resende;
Baile perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que atrai a atenção do país para a produção pernambucana;
e A ostra e o vento (1998), de Walter Lima Jr, entre tantos outros.
No final da década,
Central do Brasil (1998), de Walter Salles, ganha prêmios no Festival de Berlim, o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro nos Estados Unidos e recebe duas indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, para Fernanda Montenegro.