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Ciências Humanas e suas Tecnologias.  

A mezinha cura Inocência, mas o mau-olhado...

Visconde de Taunay – Inocência
No romance >Inocência de Visconde de Taunay o personagem Cirino representa os curandeiros e médicos ambulantes do sertão, que levavam adiante a tradição da cura pelas plantas e pelas forças da natureza. Ele percorria as regiões distantes, atrás de quem necessitasse de seus conhecimentos médicos, baseados, sobretudo, em um guia chamado Chernoviz, do qual tinha grande orgulho. Essa medicina prática o faz encontrar Inocência, que sofria de maleita e é por meio de sua mezinha que ele entra na vida da sertaneja reclusa.
 
Medicina contra mal de amor
 
O tratamento receitado por Cirino consistia em suador de folhas de laranjeira, café com sulfato de quinina, limões doces para matar a sede e a mudança da cama para a linha do nascente ao poente. São componentes típicos da medicina popular do Brasil, que se constituiu com elementos indígenas, africanos e portugueses. De mezinha em mezinha e, ainda, preceituando uma dieta alimentar que excluía carne fresca, ervas, ovos e farinha de milho por um mês, Cirino apaixona-se pela sertaneja e é correspondido.

O sentimento do par não tem futuro, pois Inocência já estava prometida a Manecão Doca e, no sertão da época, esse tipo de compromisso era definitivo. Cirino parte em busca da ajuda do padrinho de Inocência. A moça, sentindo-se abandonada, acha que o rapaz lhe pôs um mau-olhado, pois não consegue tirá-lo da mente. Como sertaneja típica, a personagem manifesta a crendice popular sobre os poderes negativos de alguém. Verdade ou não, o certo é que, na narrativa, Inocência morre depois que Cirino é assassinado por Manecão...
 

Curando com limão e... cama
    
Para Câmara Cascudo, o pajé - que até hoje sobrevive nas grandes cidades na figura do vendedor de ervas ou de remédios do mato - não tem preservadas suas verdadeiras tradições medicinais. Os nossos remédios do mato são formas populares de fonte portuguesa, que valorizam os recursos naturais da terra.

As espécies de prestígio desde o século 18, tais como alho, arruda, alecrim, agrião, alfazema, limão, sal e pimenta, hortelã e manjericão, originaram-se da Europa. Aliás, Cirino baseava suas receitas em um livro chamado Chernoviz, de larga tradição em Portugal. Escrito por Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, doutor em medicina, cavaleiro da Ordem de Cristo, oficial da Ordem da Rosa, esse livro era um guia para a saúde do povo português, com importante papel em sua formação espiritual. No Brasil, país imenso e sertanejo, o guia era obra indispensável nos lares dos fazendeiros prósperos, compensando a inexistência de médicos.
 

Cruz, credo!
 
Visconde de Taunay
O mau-olhado, também conhecido no Brasil como "olho de seca-pimenteira" ou "olho-grande"  é, na verdade, uma crença universal e milenar, registrada em todas as literaturas. Os gregos utilizavam a cabeça da Medusa para reprimir essa força negativa. No Brasil, amuletos como figa, corninho, meia-lua, corcunda, elefante, folhas de arruda, um vaso de comigo-ninguém-pode ou de espada-de-são-jorge destinam-se, segundo o povo, a combater o mal.




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