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Vira Vira Lobisomem

José Lins do Rego
José Lins do Rego – Menino de Engenho

A história de Menino de Engenho, obra de José Lins do Rego, acontece na região limítrofe entre Pernambuco e Paraíba e reconstrói um vasto panorama das tradições, das crenças e das superstições que marcaram o ciclo da cana-de-açúcar. É desse universo que Carlos Melo, o personagem principal, dá testemunho, relatando seu envolvimento com o dia a dia do engenho de seu avô, o coronel José Paulino.
 
Superstições e crendices
      
Como todos os outros engenhos, o Santa Rosa tinha alguns de seus dias tumultuados pelas superstições. Uma dessas crendices atingia José Cutia, um paraibano comprador de ovos, que muita gente afirmava ter visto por debaixo dos ingazeiros virando bicho. Nas palavras assustadas das pessoas do lugar, as unhas de Cutia cresciam como lâminas enormes, os pés ficavam como os de cabra e os cabelos viravam crinas de cavalo. Chegavam a comentar que, no momento da transformação, o homem grunhia como porco na faca. Ele não queria, mas seu corpo não podia viver sem sangue. "E bancava o lobisomem contra a vontade".

O povo desconfiava de José Cutia porque ele andava sempre à noite, era amarelo e magro. Diziam que comia fígado de menino e tomava banho com sangue de criança no peito. E que também bebia sangue de animais, chupando-os no pescoço. Um dos potros do coronel José Paulino amanheceu com um talho minando sangue, o que firmou a crença do menino Carlos na lenda do lobisomem e o fazia ir para a cama assustado. Dormia com medo do desconhecido, das matas, de homens amarelos que comiam meninos. Adormecia pensando nas histórias do bicho-carrapato, da cabra-cabriola, do caipora, da burra-de-padre.
 

O mais popular dos animais fabulosos
    
A licantropia, que é uma perturbação mental obsessiva na qual a pessoa acredita que se transformou em lobo, faz parte do folclore universal. Na África, existe a tradição sagrada das transformações: homens-lobos, homens-tigres, homens-hienas. Na Europa, alemães, franceses, eslavos e os povos indo-europeus achavam que por um mal-agouro um homem se transformava em lobo, jumento, bode ou cabrito.

Em Portugal acreditava-se que o lobisomem era filho de comadre e compadre ou padrinho e afilhada. A identificação da pessoa marcada por esse destino não era difícil, pois segundo a convicção popular, uma aparência sempre magra e cores doentias denunciavam o possuidor do mal. No relato de Menino de engenho, José Cutia, o provável lobisomem, também era amarelo, magro e só andava durante a noite, o que dava às pessoas a certeza de ser ele o misterioso bicho da Mata do Rolo, macilento, com orelhas compridas e nariz levantado.

Isso demonstra que a crença brasileira seguia o pensamento português, acrescentando-se que o fado surgia de um incesto ou de uma doença chamada hopoemia, que é a falta de sangue em certa região do corpo. Pelos sertões do país, a população pensava que o bicho grande sangrava crianças, animais novos ou a quem encontrasse antes do dia raiar.

Para desencantar o portador do mal, seria necessário feri-lo até sair sangue ou utilizar uma bala untada com cera de vela que tivesse queimado durante três missas de domingo ou na missa do galo. Há centenas de depoimentos registrados em documentos oficiais afirmando encontros e lutas pessoais com o lobisomem.



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