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Cara feia espanta?

Carlos Drummond de Andrade
 
Carlos Drummond de Andrade
Considerado sóbrio e comedido, características que também podem ser aplicadas à segunda geração modernista, na qual está inserido, Carlos Drummond de Andrade é o poeta do cotidiano, da realidade aparentemente simples e corriqueira. 'Realidade aparente' porque com sua sensibilidade Drummond consegue revelar toda a singularidade escondida no prosaico. Essa marca - conseguir revitalizar o usual - também se aplica às tradições.

O poeta vai buscar as imagens da emoção e do sentimento materializadas em aspectos folclóricos, como as carrancas do rio São Francisco, para falar de um cotidiano atual. Com isso, traduz o que parece indizível ou cria uma outra feição para o dia a dia do homem comum.
 

Poesia do cotidiano
      
Drummond consegue fazer poesia, no sentido mais sublime da palavra, falando de cheques, duplicatas, recibos, bancos e desconfiança. Aborda com delicadeza o medo daquilo cuja existência desconfiamos, mas que não sabemos exatamente o que é, nem quando vai nos 'passar para trás'. De modo comovente, fala dos temores urbanos e das ameaças sempre presentes, quando sugere, diante desse cotidiano, a ajuda das carrancas do São Francisco.

Será que essas figuras, acostumadas pelos anos, pela energia da fé e da tradição, a enfrentar forças traiçoeiras e muitas vezes insuspeitas, podem salvar a todos? O paralelo entre o rio São Francisco e suas carrancas com uma rua central e financeira que possui identificação, mas que pode estar em qualquer cidade, revela, com lirismo, o nosso abandono, a nossa solidão, a nossa impotência diante do que nos circunda e nos ameaça.


"Carrancas do rio São Francisco"
 
As carrancas do Rio São Francisco
largaram suas proas e vieram
para um banco da Rua do Ouvidor.

O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.

Já não defendem do Caboclo-d'água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
postados no salão, longe das águas?

Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura da proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?

Quisera ouvi-los; muitos contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.

O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas catadeiras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho...
 
(Carlos Drummond de Andrade) 

 
 
Indicadores de prestígio
    
A evolução das embarcações primitivas levou as figuras de proa, surgidas basicamente com conotações místicas, aos grandes navios, nos quais sua função passou a ser meramente decorativa. As carrancas do São Francisco originaram-se dessas figuras criadas na decoração naval dos povos ocidentais.

Imitando navios de alto-mar vistos nas capitais da província da Bahia e do resto do país, os pequenos nobres e os fazendeiros do São Francisco fixaram as figuras de proa em uma sociedade rural primitiva. Seus cidadãos, dependendo da posição social, deram conotações diferentes às tais figuras. Assim, os fazendeiros as empregavam como elemento de prestígio e também como indicação de propriedade.

 
Para o carro que canta, mostre a carranca!
 
As condições de vida, a superstição e a ingenuidade dos remeiros geravam explicações sobrenaturais para tudo que os rodeava ou lhes acontecia: os encalhes, os naufrágios, os afogamentos. As fatalidades enfrentadas pelos remeiros e as suas crenças juntaram-se aos pavores noturnos da gente ribeirinha, fazendo nascer seres ameaçadores aos quais se atribuíam os acontecimentos funestos.

O baixo São Francisco transformou-se na habitação do Caboclo-d'água; da Mãe-d'água; e do Minhocão, também conhecido como Surubim-Rei. Para as camadas populares, também povoavam a região o Duende, o Lobisomem, o Anhangá, o Angaí, a Alma, o Esqueleto, o Gato Preto, o Capetinha, o Cavalo-de-água, a Cachorrinha-d'água, a Cobra-d'água, o Cavalo-do-Rio, a Serpente-do-Rio, o Bicho-d'água e o Carro-de-boi mágico, que cantava de noite no fundo do rio. 
 
 
 
Para espantar o mal  
  
Contra todas essas entidades ameaçadoras, as pessoas utilizaram figuras impressas nos barcos, cujo valor estava na feiura. O isolamento da região contribuiu para uma expressão singular: olhos esbugalhados, misto de homem, com suas sobrancelhas arqueadas, e animal, com sua expressão feroz e sua cabeleira de juba leonina. As feições ameaçadoras eram preferencialmente pintadas em vermelho, preto e azul.

Nos tempos modernos, as únicas embarcações populares que apresentaram as figuras de proa foram as do baixo São Francisco. As carantonhas iniciais datam de 1875-1880, mas foram citadas pela primeira vez em livro no ano de 1888. Transformadas pela população em amuleto protetor dos navegantes, as carrancas se generalizaram no século 20.

 
 
Figuras sagradas
    
Sendo manifestação artística coletiva, com caracteres comuns, fruto de uma cultura e de uma região em isolamento, seus primeiros artesãos buscaram a solução plástica no hábito de esculpir santos, seguindo a influência ibérica. Francisco Guarany, um dos mais destacados escultores de carrancas, tinha iniciado seu trabalho com figuras sagradas, porém o baixo rendimento o fez abandonar a prática.

Em 1901, aos 17 anos, produziu sua primeira cabeça de proa e, ao lado de Sebastião Branco e Moreira do Prado, tornou-se artista de destaque. Com o Regulamento do Tráfego Marítimo de 1940, as embarcações foram substituídas pelo motor, e as carrancas do São Francisco deixaram de ser feitas para a sua função
original.    
 
Para saber mais:
Site oficial de Carlos Drummond de Andrade



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