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Adivinha, adivinhão



Manuel Bandeira 

 
Poeta de grande sensibilidade e profundo lirismo, Manuel Bandeira aborda sobretudo o cotidiano e o biográfico. Construindo uma espécie de relato íntimo no qual desfilam cenas tradicionais e comuns em sua infância, consegue tornar vivos no presente os jogos, as brincadeiras, as festas, as crenças, as cenas carregadas de conteúdo folclórico. Com frequência, retoma com carinho, como uma brincadeira expressiva, as formulações tradicionais da linguagem popular: os jogos com as palavras e com a sonoridade, as trovas, as quadrinhas, tudo que provavelmente ouviu quando menino.

Entre essas expressões da linguagem e da literatura oral, Bandeira utilizou também a adivinha, elemento lúdico de integração e desenvolvimento na pedagogia dos lares, nas brincadeiras infantis, nas reuniões de adultos. Desse modo, aproxima-se mais de seu leitor, ao mesmo tempo em que o instala nas raízes nacionais e o faz refletir sobre a grandeza do cotidiano.
Manuel Bandeira

 
Adivinha 
    
O animal deu nome às ilhas:
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
Responda, senhor ou dama.
(Manuel Bandeira)

O que é, o que é? 
  
Gênero universal e favorito de todos os povos, é difícil determinar a origem das adivinhas brasileiras. Muitas são de procedência portuguesa, algumas têm origem indígena ou mestiça e há também um legado africano.

Pertencentes à literatura oral, esses jogos do espírito tanto possuem um caráter lúdico quanto pedagógico. Fazem parte do folclore brasileiro e da cultura popular. Na cultura religiosa, serviu largamente ao exercício das coisas da fé, do catecismo laico. A articulação do jogo com recursos orais concede às adivinhas ou aos enigmas um papel didático ideal para o ensino na infância.

O colocador de adivinhas

As adivinhas ainda se conservam no meio rural, no qual é centro de interesse na reunião familiar, como nos séculos anteriores. Nessa época já distante, em feiras do sertão brasileiro, o colocador de adivinhas era uma figura imprescindível; ao seu redor se juntavam velhos, moços e crianças para o torneio verbal.

Propor e decifrar enigmas são formas literárias nas quais a ideia do objeto ou ser vem envolta em uma alegoria, a fim de dificultar a descoberta. As adivinhas são enunciadas normalmente com uma fórmula popular para garantir a atenção: elas podem iniciar-se com uma pergunta do tipo "O que é, o que é?", "Me diga lá, agora me diga", ou "Que será, que será?".

Ora a linguagem é metafórica, ora emprega-se a comparação que induz ao deciframento. Sua forma pode ser metrificada, em quadrinhas com rimas, o que facilita a fixação e a transmissão. De acordo com o assunto, podem ser classificadas em adivinhas de religião, adivinhas de goga (maliciosas ou escatológicas) e as chamadas comuns, que reúnem diversos assuntos.

Popular e anônima 

De impossível identificação autoral, as adivinhas atravessaram séculos anônimas, transmitidas oralmente. Symphosius, um romano que viveu no início do século 5, é indicado pela história como o pioneiro de um livro de adivinhas.

O texto produzido pelo romano apresentava cem adivinhas em versos. Já a primeira edição impressa desses enigmas é do século 18. Atualmente, já se podem diferenciar os enigmas com formulação literária, mais rebuscados e obscuros, e as formas populares, enfatizando a sonoridade e a repetição, como o exemplo abaixo, referente ao sal:

 
N'água nasci,
N'água me criei;
Se n'água me botarem,
N'água morrerei.



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