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Debate: ameaça ou obscurantismo?

Ecologistas, cientistas, produtores e grandes empresas defendem seus pontos de vista e estão longe de chegar a um acordo sobre o assunto.
 

As experiências com transgênicos em campos agrícolas começaram em 1986. Até 1997, cerca de 25 mil experimentos foram conduzidos em 45 países. A partir de 1997, a liberação para comercialização de pelo menos 48 transgênicos foi autorizada nos EUA, na China, no Canadá, na Austrália e no México. No Brasil, a liberação do plantio de sementes transgênicas ocorreu em 2003.

Acordo difícil

Para tratar da regulamentação mundial do cultivo de transgênicos, a Organização das Nações Unidas promoveu, no início de 2000, a Conferência Mundial sobre Biossegurança, em Montreal, Canadá. Seu objetivo era estabelecer um tratado internacional de comércio dos produtos transgênicos.
 
Em 2003 entrou em vigor o Protocolo de Cartagena, formado por diversos países, com o objetivo de debater e regulamentar questões referentes ao transporte, manipulação e utilização de alimentos transgênicos.
 
O consenso sobre o assunto, porém, não é tarefa simples. Alguns dos maiores plantadores de transgênicos resistem em condicionar a liberação dos transgênicos a avaliações científicas que demonstrem que eles não provocam danos ambientais. Os ambientalistas consideram que os transgênicos ainda não foram testados suficientemente para serem lançados no meio ambiente e que seus defensores visam apenas ao lucro fácil.
 
Os meios científicos e empresariais favoráveis aos transgênicos dizem que os ambientalistas agem sem base científica e são contrários ao desenvolvimento da pesquisa científica e de suas aplicações para baratear os custos de produção de alimentos, em nome de um ambiente idílico, que já não existe.


A favor

 
Vantagens dos transgênicos

Os alimentos transgênicos, em especial os grãos, vêm ganhando a preferência dos produtores em vários países por seus custos reduzidos e maiores chances de bons resultados. Soja e milho transgênicos, por exemplo, resistentes a pragas e a herbicidas, simplificam e barateiam todos os custos da cadeia produtiva, resultando em um produto final mais barato. Evitam ou reduzem o uso de agrotóxicos e sua dispersão no meio ambiente.

Alguns processos de modificação genética visam a adaptar culturas às condições ambientais – maior ou menor umidade, variações de temperatura, salinidade etc. –, bem como transformá-las em veículos para suprir carências nutricionais, vacinas etc. Além disso, o fato de serem consumidos há mais de 10 anos sem prejuízo aos consumidores comprova que não fazem mal à saúde, o que afirmam os testes realizados em laboratório.
 
Resistência a insetos

As plantas modificadas geneticamente para apresentar resistência a insetos evitam que cargas de inseticida sejam jogadas no solo, preservando a biodiversidade. O melhor exemplo é o milho-Bt, no qual foi introduzido um gene da bactéria Bacillus thuringiensis, que produz uma substância letal para larvas de insetos, funcionando como inseticida natural.
 
Resistência a herbicidas

Caso exemplar é o da soja Roundup Ready, primeiro transgênico liberado para consumo nos EUA. O herbicida Roundup (nome técnico do glifosato), da empresa Monsanto, usado para matar ervas daninhas, também atacava a soja, o que levou a empresa a produzir sementes de soja geneticamente modificadas para não serem afetadas por seu herbicida Roundup. Daí o nome dessa soja, Roundup Ready (pronta para o Roundup).

Resistência ao apodrecimento

Foi criado um tipo de tomate (Flavr Savr) que amadurece mais devagar, desativando-se a enzima que leva ao envelhecimento. Isso facilita seu transporte e dá mais tempo aos supermercados para vendê-los.

Menos gordura

O óleo extraído de plantas modificadas para produzir menos ácidos graxos saturados pode ser utilizado na produção de margarinas menos prejudiciais à saúde.

Mais aminoácidos essenciais e vitaminas

O mais importante exemplo de enriquecimento de um alimento é o do arroz dourado, que apresenta maior teor de betacaroteno, precursor da vitamina A. Sua produção em massa contribuiria para enfrentar a subnutrição nos países pobres. Além disso, um arroz com teor aumentado de ferro serviria para controlar a anemia.

Vacinas

Uma batata com gene da bactéria Escherichia coli foi criada recentemente e está sendo testada em camundongos como vacina contra a diarreia causada por essa mesma bactéria. Também foram feitos testes com batatas com um gene que codifica a proteína da capa do vírus da hepatite A. Os resultados desses testes em camundongos foi positivo, e agora existem vários laboratórios investindo nesse conceito de “vacina comestível” com batatas, bananas, alfaces e outros alimentos.


Contra

Perigos associados aos transgênicos

As maiores críticas aos transgênicos são formuladas por ambientalistas temerosos de que os organismos geneticamente modificados possam acelerar o desequilíbrio ecológico no planeta, além de fazer mal à saúde. Diante disso, defendem o princípio da precaução. Veja suas principais críticas:

Superpragas

Quando se colocam genes resistentes a agrotóxicos em alimentos transgênicos, as pragas e as ervas daninhas combatidas podem adquirir a mesma resistência, por causa da transferência de genes, tornando-se superpragas, ultrarresistentes a herbicidas, causando desequilíbrio nos ecossistemas e provocando o uso de doses crescentes de veneno.

O que aconteceu com a canola foi algo próximo a isto: a planta resistente foi cruzada com outras variedades de canola e começou a atuar como uma planta invasora de outros plantios.

Mais tóxico

A modificação genética de plantas pode produzir substâncias tóxicas para os organismos que dela se alimentam, transferindo toxinas também a seus predadores naturais, o que poderia alcançar toda a cadeia alimentar.

Alergias

A transferência de genes entre espécies pode produzir processos alérgicos inesperados. O gene introduzido pode formar novos compostos no organismo, como proteínas e aminoácidos, alterando o equilíbrio entre seus componentes. Exemplo: soja enriquecida com genes de castanhas podem se tornar mais nutritivas, mas também provocar alergias em quem não tem tolerância à castanha.

Solo pobre

Junto com os resíduos de culturas, a toxina Bt, produzida pelas plantas transgênicas, pode ser incorporada ao solo, afetando os seres vivos que têm papel importante na reciclagem da matéria orgânica e fornecem os nutrientes às plantas.

Sem volta

Os ambientalistas argumentam que, depois de introduzir espécimes transgênicos no meio ambiente, é impossível reverter seu impacto nos ecossistemas ou controlar possíveis processos de transferência espontânea de genes.
 

O caso das borboletas



Uma das maiores polêmicas no debate sobre transgênicos é o caso do milho-Bt. Um estudo da Universidade de Cornell (EUA), realizado em laboratório em 1999, indicou que o pólen do milho-Bt poderia ameaçar a lagarta da borboleta-monarca. Muitos ambientalistas usam esse estudo como bandeira para 'provar' que os transgênicos fazem mal à natureza. Testes de campo realizados posteriormente não confirmaram os resultados de laboratório.

Um consórcio de cientistas de universidades e empresas norte-americanas, liderado pelo Serviço de Pesquisa Agrícola (ARS) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), depois de dois anos de pesquisa concluiu que o pólen do milho não causaria dano às larvas da borboleta-monarca. Para haver qualquer efeito danoso, seriam necessários mais de mil grãos de pólen por centímetro quadrado. Os cientistas concluíram que a exposição média normal das borboletas ao pólen chega apenas a 170 grãos por centímetro quadrado.


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