A poesia concreta é o rock'n'roll da poesia?
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Esquiadores, Thomas
Ianelli, 1979. |
A revista O Cruzeiro de março de 1957 trazia a seguinte manchete: 'O Rock'n'Roll da Poesia', sobre o surgimento da poesia concreta. A idéia era que fosse uma moda passageira e insignificante, diferente como a música que surgira poucos anos antes nos Estados Unidos. Duplo engano. Nascendo na mesma época da bossa nova e do rock'n'roll, a poesia concreta é o primeiro estilo literário a surgir, se não antes, pelo menos ao mesmo tempo no Brasil e no resto do mundo. Em uma literatura que sempre se viu atrelada às modas vindas de fora, esse é um fenômeno único. Mas nem por isso a admiração pela poesia concreta é unânime. Ainda hoje os experimentalismos radicais, como a destruição do verso, as experiências de disposição original das palavras na página, a desintegração da própria palavra ou a recusa à poesia discursiva assustam e afastam alguns leitores, gerando polêmicas acaloradas.
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| Foto de Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos em 1952. |
1. O grupo Noigandres
Tirando o nome de uma palavra misteriosa que aparece no 'Canto XX', dos Cantos, de Ezra Pound, decifrada como 'antídoto ao tédio', três jovens paulistas, com pouco mais de 20 anos, formaram, em 1952, um grupo destinado a revolucionar a poesia mundial.
| Reagindo ao formalismo academicista dos neomodernistas de 1945 e procurando recuperar o espírito revolucionário de 1922, Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos publicam seus poemas e começam a investigar as possibilidades de uma poesia que abolisse o verso e procurasse novas formas de expressão. |
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| Poema criado em 1972, por Augusto de Campos, em homenagem à vaia que Caetano Veloso levara alguns anos antes. |
2. A poesia concreta
Em 1953, Augusto de Campos, aos 22 anos, compõe uma série de poemas coloridos e dispostos de maneira original na página. Inspirados na música de vanguarda de Anton von Webern (1883-1945), os textos de Poetamenos podem ser considerados o primeiro exemplo da poesia concreta. No final de 1956, o grupo Noigandres organiza, com artistas plásticos e outros poetas que aderem ao movimento, uma exposição em São Paulo, transposta no início de 1957 para o Rio de Janeiro. Lançam, assim, a poesia concreta no Brasil, dando início à polêmica recepção desse movimento. O infatigável trabalho dos três fundadores do
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| Capa do suplemento de domingo do Jornal do Brasil, de 21/22 de março de 1959. |
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movimento já se afastou em vários momentos do radicalismo de suas propostas iniciais. Mas continua enriquecendo a cultura brasileira e, como disse Décio Pignatari, instigando 'a geléia geral brasileira'.
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Poema 'Terra' (1956), de Décio Pignatari.
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2a. Décio Pignatari (1927)
Nascido em Jundiaí, São Paulo, publicou seu primeiro livro, O Carrossel, em 1950, ainda sob influência dos neomodernistas de 1945. Sua poesia, reunida em Poesia, Pois é, Poesia (1977), apresenta, além dos textos concretos, experiências com a 'poesia semiótica', em que usa símbolos e não palavras. Introduziu a linguagem concreta na propaganda e tornou-se um dos maiores especialistas brasileiros em semiótica. Recentemente publicou o livro Panteros, de prosa poética.
2b. Haroldo de Campos (1929-2003)
Paulistano, o mais barroco dos concretos lançou seu primeiro livro, Auto do Possesso, em 1950. Sua poesia está reunida nos volumes Xadrez de Estrelas (1977), Signantia: Quasi Coelum (1979), A Educação dos Cinco Sentidos (1985) e Os Melhores Poemas de Haroldo de Campos(1992).
| Além de incontáveis ensaios críticos, publicou, em 1984, seu 'livro de ensaios', na realidade um longo poema em prosa, Galáxias, escrito entre 1963 e 1973. |
| '(...) circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha (...)'
[Haroldo de Campos, fragmento do poema em prosa Galáxias (1963 a 1973)]
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Tradução de Augusto de Campos |
2c. Augusto de Campos (1931)
O mais radical dos inventores da poesia concreta, Augusto de Campos mantém-se até hoje absolutamente fiel às propostas iniciais de uma poesia antidiscursiva, sintética, visual e contundente. Publicou seu primeiro livro, O Rei Menos o Reino, em 1951. Durante a década de 1970, em colaboração com o artista plástico Julio Plaza, lançou dois volumes de 'poemas-objeto', contendo textos tridimensionais, Poemobiles (1974) e Caixa Preta (1975). Dois livros apresentam o básico de sua obra: Viva Vaia – Poesia (1979) e Despoesia (1994). Tem publicado vários livros de ensaios críticos. Atuante crítico de música na década de 1960, foi um dos primeiros a reconhecer o talento poético de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em ensaios reunidos no livro No Balanço da Bossa (1968). Atualmente, dedica-se a investigar novos meios para a poesia, como a holografia e a computação gráfica.
| Lançou, em parceria com seu filho, o músico Cid Campos, um CD com leituras criativas de seus poemas e traduções, Poesia é Risco (1994). |
| Augusto de Campos, poema 'Dias dias dias', da série Poetamenos |
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2d. Outros poetas
Ao grupo Noigandres original logo se somaram José Lino Grünewald (1927) e Ronaldo Azeredo (1937). Wladimir Dias Pino (1927) participou da exposição de 1956.
| A nova poesia fascinaria também poetas de gerações anteriores, como Edgard Braga (1889-1985) e Pedro Xisto (1901-1987) e mesmo Manuel Bandeira, que arriscou algumas composições concretas. |
José Paulo Paes (1926-1998), vindo do Neomodernismo de 1945, durante anos aplicaria os métodos de composição concreta em poemas muito bem-humorados. Posteriormente, viria a abandoná-los. A influência da poesia concreta pode ser detectada em inúmeros poetas jovens brasileiros.
2e. Re-Visões e Traduções
Além do trabalho poético próprio, destacam-se as traduções, de diversos idiomas, feitas por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. A lista é interminável: Mallarmé, Ezra Pound, Dante, Goethe, John Donne, Shakespeare, Homero, textos do Velho Testamento, E.E. Cummings, Gertrude Stein, Rimbaud, Maiakovski, a lírica provençal, Gerard Manley Hopkins, Rilke, James Joyce. Traduzindo, tornaram acessível ao leitor de língua portuguesa muito do que há de mais rico e instigante na literatura universal. Como se não bastasse isso, pesquisaram a literatura brasileira e revitalizaram o interesse por autores como Sousândrade, Kilkerry, Gregório de Matos e mesmo Oswald de Andrade.
| Tradução do soneto'Vogais', de Arthur Rimbaud, feita por Augusto de Campos, com a contribuição gráfica de Arnaldo Antunes. Do livro Rimbaud Livre (1992). |
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