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Autonomia original

Artigas, herói da independência uruguaia.
O processo de independência do Brasil não foi um fato isolado na história americana. Foi concomitante à independência das colônias espanholas durante os primeiros 30 anos do século XIX. Em todos os países latino-americanos, vingou o projeto da classe dominante de uma independência sem mudanças profundas.
Várias diferenças deram exclusividade à nossa independência:

• A independência do Brasil foi relativamente pacífica e sem grandes abalos. Ao contrário das guerras populares nos outros países americanos, aqui houve poucas reações de tropas portuguesas fiéis à coroa portuguesa.

• O Brasil manteve a unidade territorial conquistada ainda no período colonial; a América espanhola fragmentou-se em várias nações.

• No Brasil, não houve participação popular e também não se destacaram líderes, os chamados "libertadores" latino-americanos, como Simón Bolívar (Venezuela), José Artigas (Uruguai), San Martín (Argentina) e O'Higgins (Chile).

• Ao proclamarem sua independência, as colônias espanholas da América optaram pelo regime republicano, seguindo o modelo norte-americano. O Brasil ficou com o regime monárquico, não porque fosse popular entre os brasileiros e nem pelo fascínio que a pompa e o luxo da Corte exerciam nos colonos, mas sim por causa do processo político desencadeado pela instalação da Corte portuguesa na colônia em 1808.


Mudado, mas nem tanto

O movimento que desembocou na independência concentrou-se na figura do rei e depois na do príncipe regente. A monarquia transformou-se em símbolo de autoridade e estabilidade mesmo quando D. Pedro I era contestado.
A elite que promoveu e apoiou a independência não tinha interesse em rupturas que ameaçassem a estabilidade da antiga colônia. A organização do Estado brasileiro que se seguiu à independência resultou no projeto do grupo liberal-conservador, que defendia a monarquia constitucional, a integridade territorial e o regime centralizado. Quer dizer, a emancipação do Brasil não resultou em grandes alterações de ordem social e econômica ou na forma de governo.

Quem lucrou 
   
A independência beneficiou o grupo que estava no poder ligado ao futuro imperador, isto é, a elite agrária, que manteve seus privilégios e o povo a distância, evitando assim que o fato se tornasse uma revolução social. Por outro lado, a independência evitou a recolonização lusitana pela conquista da emancipação política.
Na esfera internacional, o movimento tinha garantida a participação da Inglaterra, que não só apoiou o movimento e participou das lutas de independência, como também apressou seu reconhecimento em troca de privilégios comerciais. 

Charge de época criticando a grande influência inglesa.


Uma independência original, sem abalos, pacífica, em curto tempo, sem a participação do povo. Coube ao povo participar apenas do quadro de Pedro Américo, na figura do simbólico carroceiro olhando surpreso D. Pedro dar o "Grito do Ipiranga". Veja a correta observação do historiador Caio Prado Júnior:

"Fez-se a independência, praticamente à revelia do povo, e se isto lhe poupou sacrifícios, também afastou por completo sua participação na nova ordem política. A independência brasileira é fruto mais de uma classe do que da nação tomada em conjunto."


Nova dependência

O Brasil se subordinou aos interesses do capitalismo industrial inglês. Passou a depender do mundo financeiro britânico, como se pode perceber no texto abaixo, uma descrição das lojas do Rio de Janeiro feita por Mary Graham, inglesa que veio ao Brasil em 1821.

"As ruas estão, em geral, repletas de mercadorias inglesas. A cada porta as palavras 'Superfino de Londres' saltam aos olhos: algodão estampado, panos largos, louça de barro, mas acima de tudo ferragens de Birmingham podem ser obtidas nas lojas do Brasil a um preço um pouco mais alto do que em nossa terra." 


Pode não ser a abordagem mais correta encarar a independência como um movimento que nada mudou, pois o Brasil passara da dependência inglesa por meio de Portugal à dependência direta da Inglaterra. Se muitos professores de História dizem aos alunos que "Em 7 de setembro mudamos de dono", o historiador Boris Fausto mostra outro lado da questão: a independência teria representado, mais do que uma troca de nomes de dominadores, "uma mudança da forma como a antiga Colônia se inseria no sistema econômico internacional" e também exigia a construção de "um Estado nacional para organizar o país e garantir sua unidade" (Boris Fausto, em História do Brasil).




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