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A Guerra do Contestado (1912 a 1916)

Cartaz dos fabricantes e exportadores J. Cima & Cia. divulga a erva-mate, cultivada pelos camponeses da região do Contestado.
Contestado era o nome de uma área de 48 mil quilômetros quadrados na divisa do Paraná e de Santa Catarina, disputada pelos dois Estados desde os tempos do Império. A mudança do sistema político trouxe à região alterações significativas, nem sempre aceitas pela população local:

• Na época da Monarquia, a posse da terra não era muito definida. A população ocupava espontaneamente a região, criando gado e plantando erva-mate. Com a Constituição republicana de 1891, passou a ser obrigatória a existência de escrituras de terras, o que foi providenciado rapidamente pelos fazendeiros locais. Eles, entretanto, registraram em seus nomes muitas áreas que há mais de um século eram de pequenos lavradores e vaqueiros. 


• Com a República, a região chamou a atenção de modernas empresas de colonização. O governo doou terras para um grupo norte-americano construir uma estrada de ferro e uma serraria. Para isso, os pequenos proprietários foram expulsos de suas terras sem nenhuma indenização. Mão de obra de outras regiões foi contratada. Quando a ferrovia ficou pronta, cerca de 8 mil homens ficaram sem emprego. 

Os monges

Como no Nordeste, também no Sul apareceram religiosos peregrinos, ou monges, que iam de vila em vila pregando e fazendo o papel de padres. Muitos realizavam casamentos e batizados. No início eram apoiados pela Igreja, mas, aos poucos, foram vistos como uma ameaça, pois faziam uma interpretação pessoal dos mandamentos católicos. Muitas vezes eram mais queridos do que os próprios padres.

Seguidores do monge esperavam o retorno do rei português D. Sebastião, morto em 1578.

Monge José Maria

Uma das principais lideranças de Contestado era o monge José Maria de Santo Agostinho. Afirmando ser o eleito de Deus para construir na Terra a "Monarquia Celeste", arrebanhava milhares de fiéis ao seu redor. Eram pessoas que haviam perdido suas terras para os coronéis, para a estrada de ferro ou para a serraria. Em 1912, cerca de 300 sertanejos acompanharam o monge a uma festa no arraial de Taquaruçu, em Curitibanos, Santa Catarina. Como não tinham para onde voltar, ficaram no local. O superintendente de Curitibanos, Francisco de Albuquerque, preocupado com aquela aglomeração, decidiu dispersá-los. Para não enfrentar a repressão, o monge e seus seguidores seguiram para Campos de Irani, no Paraná.

Pensando que fossem forças de Santa Catarina tentando ocupar o território em disputa, um destacamento paranaense foi até a região e entrou em conflito com os crentes. O monge José Maria e 11 sertanejos morreram. 

As virgens videntes

A morte do beato fortaleceu o movimento, aumentando o número de seguidores. A população tinha como liderança espiritual jovens virgens que diziam ser videntes.

Uma delas, Teodora, dizia ter visões de que o monge José Maria queria que se estabelecessem em Taquaruçu, para construir uma cidade santa. Por esse motivo, milhares de crentes retornaram ao arraial. Tropas locais atacaram o povoado em 1913, mas foram derrotadas.

Em 1914, a virgem Maria Rosa, de 15 anos, tornou-se líder militar dos sertanejos. Organizados, eles atacavam as propriedades vizinhas, roubando gado para o sustento da comunidade; e tinham relações comerciais com fazendeiros que se mantinham neutros em relação à sua presença na região.
Em destaque, a região do Contestado, uma área de 48 mil quilômetros quadrados na divisa dos Estados do Paraná e de Santa Catarina.

O massacre

Vários ataques foram efetuados contra os seguidores do monge, mas a maioria deles resultava na dispersão e não na destruição da comunidade. No final de 1914, o general Fernando Setembrino de Carvalho foi destacado pelo presidente Hermes da Fonseca para chefiar as tropas militares. Foram utilizadas metralhadoras, canhões e até pequenos aviões que serviam para o rastreamento e localização dos redutos para o bombardeio do local. 

Oficiais do Exército posam durante pausa nos combates do Contestado.




Depois de quase um ano, toda a região tinha sido varrida pelos ataques, provocando a morte de 20 mil pessoas. A "Guerra Santa" só terminou em 1916, com a prisão de Adeodato — o último líder dos moradores.



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