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A Revolta da Vacina (1904)

Vendedor de vassouras e espanadores nas ruas do Rio de Janeiro, em 1885, fotografado por Marc Ferrez.
No início do século XX, o governo pretendia modernizar o Rio de Janeiro, deixando-o parecido com as principais capitais europeias. Mas a cidade enfrentava uma série de problemas sociais que impediam seu desenvolvimento:

- Com a abolição da escravidão, um grande número de ex-escravos perambulava pela capital em busca de emprego. Substituídos por mão de obra imigrante e abandonados pelo governo, que não adotou nenhum programa para integrá-los à sociedade, viviam de subempregos ou na indigência
- Grande contingente de imigrantes portugueses chegou à cidade. Mão de obra pouco qualificada, eles acabaram vivendo em condições de miséria.
- Com o aumento da população pobre, proliferaram os cortiços. Ali, as doenças propagavam-se com facilidade, em função das péssimas condições de higiene. Muitos cortiços pertenciam a políticos e ricos comerciantes do Rio de Janeiro.
- As condições de higiene, abastecimento de água e saneamento básico na capital eram as piores possíveis, provocando grandes epidemias que atingiam, principalmente, a população pobre.
Escravo de ganho da cidade de São Paulo transportando água nos últimos anos antes da abolição. Fotografia de Christiano Jr.

Só em 1902 morreram, no Rio, 984 pessoas de febre amarela, 215 de peste bubônica e 580 de varíola.




Reprodução de capa da Revista da Sociedade Rural Brasileira, em 1936: pelo saneamento rural.
O bota-abaixo

Em 1904, o prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, decidiu remodelar a cidade. Para tanto, planejou o alargamento das ruas e a ampliação da rede de água e esgotos. Em abril, começou a ação que a população batizou de bota-abaixo: desapropriação e demolição de casas e cortiços nos bairros pobres da cidade. As demolições desalojaram grande parte da população, que, não tendo para onde ir, se refugiou nos morros e nos subúrbios, nos quais a elite não pretendia viver. Surgiram, assim, as primeiras favelas cariocas.

O governo achava que os problemas do Rio de Janeiro só eram decorrentes da estrutura urbana e não via a necessidade de oferecer condições de trabalho e sobrevivência aos pobres da cidade.


Vacinação Obrigatória

Charge da revista O Malho, de 11 de junho de 1903, satirizando a derrubada dos cortiços no Rio de Janeiro para a abertura da Avenida Central.
Continuando o processo de higienização do Rio de Janeiro, iniciado em 1903, o prefeito convocou o médico sanitarista Osvaldo Cruz, diretor da Saúde Pública, para resolver o problema das epidemias. Cruz propôs – e o Congresso aprovou – a vacinação obrigatória da população e lançou uma campanha para desinfetar os cortiços e bairros pobres. Homens das Brigadas Sanitárias, acompanhados de policiais, tinham autorização para invadir as casas e vacinar seus moradores à força.

Jornais e panfletos começaram a circular pela cidade, criticando o "despotismo sanitário" de Osvaldo Cruz, a quem acusavam de ser um cientista "desligado das realidades do país".

O Pão de Açúcar e a enseada da praia Vermelha, no Rio de Janeiro, em 1915.
População vai às ruas

No dia 10 de novembro de 1904, estouraram protestos na capital, com piquetes e depredações. Operários, militares, comerciantes e estudantes aderiram às manifestações. Os cadetes da Escola Militar da praia Vermelha, aliados do ex-presidente Floriano Peixoto, aproveitaram-se dos tumultos e tentaram depor o presidente Rodrigues Alves, colocando em seu lugar o senador Lauro Sodré. O presidente decretou estado de sítio e convocou tropas legalistas para enfrentá-los.
O sanitarista Osvaldo Cruz, responsável pela vacinação obrigatória.


Os revoltosos e os moradores de cortiço foram presos, colocados em navios e enviados ao Acre para trabalhar na extração da borracha. Depois de vários dias de confusão, a revolta foi controlada.




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