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A história da data

Tradicionalmente, o 8 de Março rememora a luta de um grupo de operárias mortas em um incêndio criminoso em Nova York, em 1857. Mas alguns pesquisadores não concordam com a origem da data.


Tragédia e crime


Incorformadas com as condições desumanas de trabalho, as operárias de uma fábrica têxtil na periferia industrial de Nova York decidiram cruzar os braços. Era 8 de março de 1857 e elas reivindicavam redução na jornada de trabalho e licença remunerada para gestantes. A direção da fábrica recusou-se a negociar. Trancou as mulheres dentro da fábrica e colocou fogo em tudo. Centenas de operárias morreram. O que esse crime representou? Para os patrões e autoridades locais, um ato exemplar do que pode acontecer com quem não cumpre as regras impostas pelos poderosos. Para as mulheres e trabalhadores organizados de vários países, as operárias se tornaram mártires que fortaleceram o movimento pela defesa dos direitos das mulheres. E, para muitos historiadores, foi esse incêndio que inspirou a criação do Dia Internacional da Mulher.


Acidente trágico


No entanto, essa não é a única versão para a criação da data. Segundo a socióloga Eva Alterman Blay, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, “o acidente de 1857 não aconteceu”. A professora conta que o incêndio relacionado ao Dia Internacional da Mulher aconteceu no dia 11 de março de 1911, na Triangle Shirtwaist Company, uma fábrica têxtil que ocupava o oitavo, o nono e o décimo andares de um prédio em Nova York. A empresa tinha mais de 600 empregados, em sua maioria mulheres judias e italianas, com idade entre 13 e 23 anos. Quando o incêndio começou, parte dos trabalhadores conseguiu alcançar as escadas, descendo para a rua ou subindo para o telhado. Alguns desceram pelo elevador. Mas a fumaça e o fogo tomaram conta dos três andares rapidamente e várias pessoas, desesperadas, se jogaram pela janela. Algumas mulheres morreram nas próprias máquinas. Quando o incêndio acabou, sobraram os números da tragédia: 125 mulheres e 21 homens mortos. O funeral coletivo, realizado alguns dias depois, reuniu mais de 100 mil pessoas. Hoje, o local do incêndio corresponde a uma área da Universidade de Nova York. E uma placa lembra a tragédia: “Neste lugar, em 25 de março de 1911, 146 trabalhadores perderam suas vidas no incêndio da Triangle Shirtwaist Company. Deste martírio resultaram novos conceitos de responsabilidade social e legislação do trabalho que ajudaram a tornar nossas condições de trabalho as melhores do mundo.”


Mas, e o 8 de Março?


Para Eva Blay, o martírio das trabalhadoras da Triangle se incorporou ao imaginário coletivo posteriormente à criação do Dia Internacional da Mulher. A ideia de instituir uma data em comemoração à luta pela igualdade de direitos da mulher já existia há alguns anos entre as socialistas americanas. E em 1910 – um ano antes do incêndio da Triangle – a líder comunista alemã Clara Zetkin propôs, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, a criação de um Dia da Mulher. Mesmo sem saber ao certo por que a data foi instituída, ela se consagrou ao longo do século XX, especialmente após a década de 1960, quando o movimento feminista se fortaleceu em todo o mundo. Em 1975, a ONU declarou oficialmente a data 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

Você sabia?
A Revolução Russa de fevereiro de 1917, que derrubou o tzarismo e abriu caminho para a Revolução Bolchevique, começou com uma paralisação em comemoração ao 8 de Março, numa fábrica em que só trabalhavam mulheres, em São Petersburgo. O movimento foi reprimido pela polícia; operários de outras fábricas aderiram e o conflito generalizou-se. Como a Rússia usava o calendário juliano, que tem 14 dias de diferença em relação ao calendário gregoriano, a folhinha lá marcava 23 de fevereiro.


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