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  Fundo do poço  
 

Três quartos da superfície da Terra são recobertos por água. Trata-se de quase 1,5 bilhão de km³ de água em todo o planeta, contando oceanos, rios, lagos, lençóis subterrâneos e geleiras. Parece inacreditável afirmar que o mundo está prestes a enfrentar uma crise de abastecimento de água. Mas é exatamente isso o que está para acontecer. Vinte e nove países já têm problemas com a falta d'água. O quadro tende a piorar. Uma projeção feita pelos cientistas indica que no ano de 2025, dois em cada três habitantes do planeta vão ser afetados de alguma forma pela escassez – vão passar sede ou estarão sujeitos a doenças como cólera e amebíase, provocadas pela má qualidade da água. É uma crise sem precedentes na história da humanidade. Em escala mundial, nunca houve problema semelhante. Tanto que, até 30 anos atrás, quando os primeiros alertas foram feitos por um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), ninguém dava bola para essa ameaça, que parecia improvável. Hoje, a água ganha uma importância inédita, porque virou questão de vida ou morte para milhares de pessoas no mundo inteiro.

 
   
 
  Xícara de café  
 
Da água existente no planeta, 99% não está disponível para o uso do homem: 97% é salgada e 2% forma as geleiras ou encontra-se em grandes profundidades. Apenas 1% de toda a água é doce e está armazenada em lençóis subterrâneos, rios e lagos. É essa pequeníssima parcela que atende à demanda humana. Por exemplo, se toda a água da Terra coubesse em uma única garrafa com capacidade para 1 litro, a parte 'útil' seria menos do que uma xícara de café.

Conta-gotas mundial
A falta d'água já afeta o Oriente Médio, China, Índia e o norte da África. Até o ano 2050, as previsões são sombrias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que 50 países enfrentarão crise no abastecimento de água.
• China – O suprimento de água está no limite. A demanda agroindustrial e a população de 1,2 bilhão de habitantes fazem
com que milhões de chineses andem quilômetros por dia para conseguir água.
• Índia – Com uma população de 1 bilhão de habitantes, o governo indiano enfrenta o dilema da água constatando o esgotamento
hídrico de seu principal curso-d'água, o rio Ganges.
• Oriente Médio – A região inclui países como Israel, Jordânia, Arábia Saudita e Kuwait. Estudos apontam que dentro de 40 anos
só haverá água doce para consumo doméstico. Atividades agrícolas e industriais terão de fazer uso de esgoto tratado.
• Norte da África – Nos próximos 30 anos, a quantidade de água disponível por pessoa estará reduzida em 80%. A região abrange países situados no deserto do Saara, como Argélia e Líbia.

 
   
 
  Líquido vital  
  Os primeiros seres vivos da Terra surgiram na água há cerca de 3,5 bilhões de anos. Sem esse precioso líquido, acreditam os cientistas, não existiria vida. A água forma a maior parte do volume de uma célula. No ser humano, ela representa cerca de 70% de seu peso. Uma pessoa de 65 quilos, por exemplo, tem 45 quilos de água em seu corpo. Daí sua importância no funcionamento dos organismos vivos. O transporte dos sais minerais e de outras substâncias, para dentro ou para fora da célula, é feito por soluções aquosas. Mesmo a regulagem da temperatura do corpo depende da água – é pelo suor que 'expulsamos' parte do calor interno.  
     
 
  Uso milenar  
 
O aproveitamento da água dos rios pelo homem vem de longa data. Os egípcios já usavam, desde a Antigüidade, as férteis margens do rio Nilo para a agricultura. Os cursos-d'água também representavam uma rota de transporte, pois ligavam grandes distâncias economizando energia e tempo. O desvio de rios e a criação de canais artificiais também acompanham a história das civilizações.  
Aquedutos romanos: construções para canalizar água chegavam a ter dezenas de quilômetros.
O cientista grego Arquimedes:
invenção para transportar água.
  Uma das formas mais utilizadas para isso foi a construção de aquedutos para levar água de um lugar para outro.
O aqueduto de Senaqueribe, feito pelos assírios no século VII a.C., é um dos mais antigos. Os mais famosos, porém, foram erguidos pelos romanos. Os aquedutos da Roma Antiga eram capazes de transportar água por uma centena de quilômetros. Hoje, essas imponentes construções fazem parte da beleza arquitetônica de muitas cidades européias.

 
  Estopim da guerra
Por causa dessa importância vital da água para a sobrevivência do ser humano, poderemos presenciar, já no terceiro milênio, uma nova modalidade de guerra: a batalha pela água. Um relatório do Banco Mundial de 1995 já anunciava que as guerras deste século serão motivadas pela disputa de água, diferentemente dos conflitos do século XX, marcados por questões políticas ou pela disputa do petróleo. Uma prévia do que pode ocorrer num futuro próximo aconteceu em 1967, quando o controle da água desencadeou uma guerra no Oriente Médio. Naquele ano, os árabes fizeram obras para desviar o curso do rio Jordão e de seus afluentes. Ele é considerado o principal rio da região, nasce ao sul do Líbano e banha Israel e Jordânia. Com a nova rota, Israel perderia boa parte de sua capacidade hídrica. O governo israelense ordenou o bombardeamento da obra, acirrando ainda mais a rivalidade com os países vizinhos.
 
 
  Riqueza do Brasil  
  Quando o assunto é recursos hídricos, o Brasil é um país privilegiado. O território brasileiro detém 20% de toda a água doce superficial da Terra. A maior parte desse volume, cerca de 80%, localiza-se na Amazônia. É naquela região pouco povoada que está a maior bacia fluvial do mundo, a Amazônica, com 6 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo, além do Brasil, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. A segunda maior bacia hidrográfica do mundo, a Platina, também está parcialmente em território brasileiro.
E a nossa riqueza hídrica não se restringe às áreas superficiais: o aqüífero Botucatu/Guarani, um dos maiores do mundo, cobre uma área subterrânea de
quase 1,2 milhão de quilômetros quadrados, 70% dos quais localiza-se em território brasileiro. O restante do potencial hídrico distribui-se de forma desigual pelo país. As maiores concentrações urbanas encontram-se distantes dos grandes rios, como o São Francisco, o Paraná e o Amazonas. Assim, dispor de grandes reservas hídricas não garante o abastecimento de água para toda a população.
 
     
  Má qualidade  
 
A falta de cuidado no manejo pode inviabilizar o uso da água. No Brasil, a contaminação da água ameaça a maior parte dos rios, dos lagos e das áreas costeiras. Os 'vilões' da história são os esgotos domésticos e industriais e os vários tipos de resíduos tóxicos. Na Região Amazônica, por exemplo, a água de muitos rios está contaminada pela presença de mercúrio usado no garimpo. O Estado de São Paulo enfrenta a poluição do Alto Tietê, na altura da Região Metropolitana da capital. Em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, o uso inadequado de agrotóxicos e fertilizantes poluiu o rio Guaíba.
A qualidade da água no rio Doce, que atravessa os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, também foi afetada pelo desmatamento, mau uso do solo para agricultura e extração de ouro. A contaminação por materiais poluentes, além de ser responsável pela falta de água potável no mundo e pela destruição de ecossistemas aquáticos inteiros, gera doenças como o cólera e a leishmaniose e causa danos a vários órgãos do corpo. Estima-se que um quinto da população mundial não tem acesso à água potável.
 
  Seca do Nordeste  
 

Este é um problema que tem solução. Desviar parte da água do rio São Francisco para a região semi-árida é uma idéia antiga. Na prática, seria construída uma rede de canais para abastecer açudes dos Estados atingidos pela falta d'água, como Pernambuco, Ceará e Paraíba. Especialistas calculam que um projeto desse seria capaz de levar água a 200 municípios e 6,8 milhões de brasileiros.

Há muitas divergências sobre esse projeto. Para muitos, existem formas mais simples e baratas de abastecer a população, como as cisternas.

 
     
 
  Artigo de luxo  
  O ciclo hidrológico garante permanentemente a reposição das águas dos rios, lagos e lençóis subterrâneos. O aquecimento provoca evaporação da água, principalmente dos oceanos, que retorna à superfície sob a forma de chuva e de neve. Esse processo é responsável pela 'reciclagem' de quase 500 mil km3 de água por ano. É uma pequena parte de toda essa água – cerca de 9 mil km3 – que a humanidade aproveita para consumo próprio ou uso em atividades agroindustriais. Apesar de ser mal distribuída pelos países, até pouco tempo atrás, a fração de 9 mil km3 foi suficiente para atender à demanda. Mas hoje, com 6 bilhões de habitantes no planeta, a reserva de água doce virou artigo de luxo.    
     
 
  Sem desperdício  
 

O homem ainda não perdeu sua batalha contra a falta d'água. Ou seja, a humanidade não está fadada à extinção por causa da escassez. Os cientistas pesquisam três saídas para aumentar a oferta hídrica: o aproveitamento das geleiras e dos icebergs; o uso dos estoques subterrâneos, ainda não totalmente explorados; e a dessalinização da água do mar, transformando água salgada em água doce. A má notícia é que nenhuma delas é prática nem barata. Ao contrário. Esses processos, por enquanto, são muito caros e inviáveis à maior parte dos países. Na falta de tecnologia mais em conta, resta equilibrar a oferta da água existente à demanda. Aqui não há segredos. Para garantir a 'vida útil' do líquido é preciso pôr em prática duas medidas: proteger as fontes de água e recuperar aquelas contaminadas, além de combater a cultura do desperdício – como o que ocorre na agricultura, justamente o setor que mais faz uso de água. Calcula-se que no processo de irrigação, apenas 40% da água é aproveitada. O resto escorre pelo ralo por motivos diversos: técnicas de irrigação inadequadas, água aplicada em excesso, irrigação em horários de maior evaporação.

Os números do desperdício


Chuveiro Um banho de 15 minutos gasta 105 litros de água.
Banho de 10 minutos, 60 litros.
  Descarga As descargas de válvula comum gastam 30 litros.
As que possuem caixa acoplada ao vaso sanitário
gastam a metade: 15 litros.
  Mangueira Ligada, consome 225 litros por minuto.
  Torneira Aberta, gasta 15 litros por minuto. Se ficar pingando,
desperdiça 46 litros por dia.

A manutenção precária do sistema de abastecimento das cidades também contribui para o desperdício. De cada 100 litros de água tratada que deixam as estações de saneamento, 15 litros são perdidos pelo caminho antes de chegar às torneiras. Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), o desperdício chega a 32% da água tratada devido a vazamentos e desvios gerados por ligações clandestinas. De acordo com cálculos da ONU, o consumo per capita mínimo necessário é de 40 litros diários. No Brasil, a média de consumo é de 200 litros diários. Nos Estados Unidos, esse índice salta para 250. Na região metropolitana de São Paulo, gasta-se aproximadamente 400 litros. Confrontando esse último dado com a quantidade necessária calculada pela ONU, verifica-se que os paulistanos estão gastando, diariamente, 800% a mais de água do que deveriam.
   
     

 

       
 
Glossário
Amebíase:
doença provocada por um tipo de ameba presente em água contaminada.
Aqueduto: sistema canalizado de condução de água.
Cólera: doença infecto-contagiosa que provoca diarréia, prostração e câimbras.
Leishmaniose: doença causada por protozoários do gênero Leishmania, família dos tripanossomos.
     
 

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