Meu filho tem 6 anos e todos os dias traz um objeto da escola dizendo que ganhou de um amigo. Não acredito que seja verdade, mas tenho medo de duvidar dele e cometer um erro. Também acho que não devo fazer de conta que acredito. Como devo proceder?

Se você tem dúvidas,
a melhor coisa a fazer é conversar com seu filho sobre isso. Vamos fazer algumas considerações teóricas que talvez a ajudem a compreender essa atitude e a conduzir sua conversa.

Do nosso ponto de vista (adulto), ele pode estar cometendo duas faltas morais: o furto e a mentira que tenta encobrir o furto. São faltas porque atentam contra os valores morais construídos por nossa sociedade. Uma criança de 6 anos, no entanto, não compreende ainda as faltas de acordo com os princípios morais. Ela as julga pelos seus aspectos externos, observáveis: o tamanho do prejuízo provocado ou a possibilidade de que o outro as constate.

Assim, para ele, se o objeto confiscado é de pequeno valor (seja pelo tamanho ou pela quantidade) ou se o colega tem outros iguais, a falta cometida não é grave, pois não causa grande prejuízo. Do mesmo modo, mentira grave é aquela que salta aos olhos, aquela que a "mãe percebe na hora". Se ele não foi visto pegando coisa alguma, a sua mentira é apenas uma pequena mentira, já que não pode ser confirmada pela mãe. Nesse momento, a gravidade da mentira não está na intenção de enganar.

Até 7 ou 8 anos, a criança não tem consciência das faltas morais, mas as reconhece porque o adulto demonstra desagrado, repreende e pune. Esse reconhecimento imposto pelo adulto não é suficiente: a criança precisa interiorizar os valores morais, torná-los parte de sua consciência.

Como a criança interioriza os valores morais?

O sentimento fundamental que possibilita a aquisição de noções morais é o respeito. O respeito mútuo deve ser forte o bastante
para que a criança experimente, interiormente, a necessidade de tratar os outros como ela gostaria de ser tratada. Os valores sociais são construídos na medida em que o indivíduo pensa e age em função do outro. Em outras palavras, a criança interioriza os valores morais na medida em que experimenta relações de cooperação
e respeito mútuos.

A cooperação é a essência das relações entre crianças
e adolescentes e quando uma regra de cooperação e respeito
entre eles é infringida, os laços de solidariedade ficam suspensos temporariamente. Por meio desse jogo, que ocorre também
na relação com os adultos, a criança pouco a pouco passa
a compreender a necessidade das regras e valores e os
aceita livremente.

Assim sendo, você deve conduzir a conversa de modo que ele diga o que de fato está acontecendo e ele o fará, se você estabelecer um clima de respeito e confiança.

Deixe claro que essa atitude provoca a sua desaprovação
e o seu desagrado para que ele possa reconhecer neles o mau comportamento, mas dê a ele a possibilidade de construir suas próprias convicções morais pela reparação voluntária da falta:
sugira que ele devolva os objetos que não lhe pertencem aos legítimos donos.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.