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Minha filha
tem 6 anos e está sendo alfabetizada. Estou preocupada porque ela
escreve tudo errado (faltam letras nas palavras). A professora disse
que eu não devo me preocupar, mas gostaria de entender melhor o método
de alfabetização construtivista.
De fato, a professora
de sua filha tem razão: do ponto de vista do construtivismo,
a omissão de letras no início da alfabetização
não é considerada um erro, mas uma etapa da aprendizagem
da escrita.
Tente entender
da seguinte forma: toda criança quando começa a falar,
troca letras, reduz e inventa palavras e isso não causa a
menor preocupação porque sabemos que é passageiro.
Ajudamos a criança corrigindo-a, mostrando a forma correta,
respondendo às suas perguntas, dando o tempo que ela precisa
para aprender a falar como nós, adultos. Não é
assim que acontece?
Se é
assim com a fala, porque não pode ser com a escrita? Por
que é que a criança tem que escrever tudo corretamente
desde o início? Se ela está aprendendo, porque ela
não pode errar? E não é pelo simples fato de
que todos nós aprendemos errando que devemos considerar normais
os erros iniciais da criança. Há uma explicação
para esses erros e essa explicação está numa
pesquisa feita por Emília Ferrero, uma educadora argentina,
no final da década de 70.
Essa pesquisadora
investigou crianças não-alfabetizadas, de 3 a 6 anos
de idade, para verificar o que elas sabiam sobre a escrita, mesmo
sem saberem escrever.
Os resultados
dessa investigação mostraram que as crianças
possuem conhecimentos sobre a escrita mesmo antes de iniciarem
a alfabetização.
As crianças
tentam entender o sistema da escrita observando as letras, a forma
como são combinadas, o tamanho das palavras, os espaços
entre as palavras etc. Comparam, perguntam, tentam ler e escrever
e, neste processo, vão descobrindo e desenvolvendo crenças
sobre a escrita. Essas crenças (ou hipóteses) nem
sempre são adequadas, mas à medida que as descobertas
evoluem, a própria criança vai modificando suas crenças
até entender corretamente o sistema da escrita.
Assim, a criança constrói, ao longo do tempo,
hipóteses no processo de aprendizagem da escrita:
Numa
primeira etapa, a criança já diferencia escrita e
desenho. Assim, figuras e desenhos geométricos são
coisas que "não servem para ler". No entanto, ela pensa que
a escrita, como o desenho, representa características dos
objetos e não os sons da fala. Palavras longas, por exemplo,
representam objetos grandes e palavras curtas representam objetos
pequenos.
Na pesquisa de Emília Ferreiro, as crianças associavam
uma cartela com a palavra "formiguinha" à figura
de um boi e a cartela onde estava escrito "boi" era associada
à figura da formiga. E justificavam: "Aqui está escrito
boi (apontando a palavra "formiguinha") porque essa palavra
é grande e o boi é grande. Aqui está escrito
formiguinha (apontando a cartela com a palavra "boi")
porque essa palavra é pequena como a formiguinha".
A seguir,
a criança cria a hipótese de que coisas escritas devem
ter as seguintes propriedades:
As
letras devem estar dispostas em linhas.
Deve haver espaços entre grupos de letras.
Cada grupo de letras, ou seja, cada palavra, deve ter pelo
menos três letras.
Não pode haver muitas letras repetidas na
mesma palavra.
Dessa forma,
letras espalhadas, não-agrupadas ou dispostas de forma não-linear,
bem como palavras com menos de três letras ou com letras repetidas
são rejeitadas pela criança porque "não servem
para ler".
Quando a criança, finalmente, compreende que a escrita
representa os sons da fala, ela pensa, no início, que para
cada sílaba falada escreve-se uma única letra. Se
você já ouviu a expressão "sua filha está
no nível silábico" ou "sua filha está
silábica", saiba que é isso quer dizer a fase
da aprendizagem da escrita em que a criança acredita que
se usa apenas uma letra para escrever cada sílaba das palavras.
Esse é o motivo pelo qual sua filha omite letras: ela pensa,
nesse momento, que uma só letra basta para escrever cada
sílaba.
Nessa etapa,
as crianças usam preferencialmente as vogais, escrevendo,
por exemplo, AAO ou CAO ou AVO para representar a palavra "cavalo".
Antes
de atingir o chamado nível fonético, que é
a escrita convencional, em que cada fonema é representado
por uma letra, a criança passa por uma fase intermediária
denominada silábico-alfabética. Nessa fase,
a criança escreve cada sílaba, ora com uma letra,
ora com duas. Exemplo: CAVAO, CAAO.
Como a criança
passa do nível silábico para o fonético?
O processo é
o mesmo pelo qual ela chegou até o nível silábico:
fazendo suas descobertas à medida que lê, escreve,
compara a sua escrita com a da professora, faz perguntas sobre sua
própria escrita para verificar se escreveu corretamente,
observa e copia palavras memorizadas como nomes de pessoas e marcas
comerciais.
Note que isso
é um processo, ou seja, a passagem de um nível para
outro e que não ocorre de repente, por isso não fique
aflita se a sua filha permanecer omitindo letras por algum tempo.
Dê
a ela as informações que pedir.
Ajude a fazer observações e comparações.
Ajude a identificar semelhanças e diferenças.
Peça-lhe que leia o que escreveu.
Incentive a escrever e a ler do jeito que ela acha que é.
Faça perguntas:
"Por
que você escreveu desse jeito?"
"Você acha que tem mais alguma letra?"
"Por que você pôs esse a, aqui?"
"Por que aqui você escreveu a palavra desse
jeito e aqui você escreveu de outro jeito?"
"As palavras têm um jeito só de escrever
ou elas podem ser escritas de vários jeitos?"
"Se mudarmos a ordem das letras continua escrito a
mesma coisa?"
"Duas palavras diferentes podem ser escritas do
mesmo jeito?"
Peça-lhe
que leia o próprio nome (ou qualquer outra palavra que ela
conheça de memória) apontando as letras enquanto lê
e pergunte sobre as letras que sobram.
Tente interpretar o que ela escreve, considerando o nível
em que ela está e jamais desqualifique as suas produções.
Não
tenha medo de palavras supostamente difíceis, aquelas que
nos métodos tradicionais são ensinadas no final, como
palavras com grupos consonantais (ss, ch, x etc).
Observe atentamente
as produções de sua filha, tente identificar suas
hipóteses, entender seus "erros" e perceber suas
descobertas. Acompanhe de perto o seu processo de aprendizagem da
escrita e desfrute essa coisa maravilhosa que é a inteligência
infantil. Delicie-se com as explicações que sua filha
dará nas tentativas que faz de entender o mundo.
Um abraço,
Elisa Maria Pinto
Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
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