Tenho uma filha de 4 anos com Síndrome de Down. Ela pode freqüentar uma escola normal? Ou é melhor colocá-la em uma escola especializada?


Felizmente, no mundo todo, a luta de algumas organizações e instituições pelos direitos das pessoas deficientes tem sensibilizado os governos e a população em geral para a integração dessas pessoas nas diversas modalidades da atividade humana.

Essas mudanças em relação a pessoas diferentes está atingindo, também, a Educação. São mudanças que ainda engatinham, principalmente no Brasil, mas já podemos vislumbrar alguns resultados positivos.

A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, por exemplo, assegura o ingresso do aluno portador de deficiências e condutas atípicas em classes do ensino regular, sempre que possível. Apesar de não ser uma solução – já que integração não se impõe, se conquista – a lei, pelo menos, promove uma reflexão sobre o assunto.

Abolir as classes especiais e integrar as crianças com necessidades educativas especiais às classes regulares é uma tendência mundial. Vários estudos foram feitos de diferentes propostas educacionais avaliadas, mas não há nada conclusivo sobre a melhor forma de atender às necessidades dessas crianças. Em todas as discussões, no entanto, há um consenso: o respeito às diferenças individuais e o fim do preconceito e da segregação.

Algumas pesquisas revelaram que a inserção de crianças com Síndrome de Down em classes regulares aceleram o desenvolvimento da linguagem, a incorporação de regras sociais e diminuem os comportamentos agressivos. A simples inserção, no entanto, não é garantia de integração, nem é suficiente para o desenvolvimento cognitivo. As classes muito numerosas e a falta de preparo (pelo menos por enquanto) dos professores, acabam diminuindo as possibilidades de aprendizagem das crianças.

É preciso que a escola assuma uma postura de mudança da concepção de Educação e que tenha como norte, na prática e não no discurso, os princípios universais de justiça e igualdade.

Pessoalmente, acredito na importância da Educação regular para as crianças especiais, não só pelas próprias crianças, que assim têm a possibilidade de se tornarem membros legítimos e ativos da comunidade, mas também para a construção de uma sociedade que aceite e desfrute as diferenças entre seus membros.

Algumas escolas no Brasil estão realizando bons trabalhos de Educação inclusiva, cada uma a seu modo. Algumas têm monitores na sala de aula, outras oferecem algumas aulas especiais fora do horário regular, outras indicam atendimento clínico complementar.
Mesmo que ainda estejam procurando o melhor caminho – e todos nós estamos –, essas escolas já entenderam a necessidade e o valor da integração, o que significa o ponto de partida para a realização de um trabalho sério e competente de Educação inclusiva.

Penso que uma dessas escolas poderá trazer mais benefícios para sua filha do que uma escola especial. Sugiro que você visite algumas delas (infelizmente não são muitas) e conheça as pessoas que lá trabalham e o que pensam sobre o próprio trabalho, conheça os príncípios que norteiam a proposta educativa da escola e os resultados do trabalho que realizam. Converse com as mães de crianças que estudam lá e, se isso lhe trouxer mais tranqüilidade para escolher, faça o mesmo com uma escola especial.

Não deixe de acreditar no potencial de sua filha e dê a ela oportunidades de desenvolvê-lo.

"A educação tem como princípio fundamental a capacidade de crescimento do ser humano, que é ilimitada quanto a qualquer tentativa de previsão, ou seja, de antecipadamente indicar com precisão as possibilidades de cada um". (M. J. S. Mazzotta)

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.

P.S.: Se você quiser mais elementos para refletir sobre o assunto, recomendo-lhe o livro A Integração de Pessoas com Deficiência, de Maria Teresa Eglér Mantoan, da Memnon Edições Científicas Ltda. É uma coletânea de textos de diversos autores. São reflexões teóricas, relatos de experiências com classes inclusivas feitas no Brasil e no exterior, depoimentos de famílias. Todos muito bons.