Meu filho tem 14 anos, repetiu a 7ª série e é superindisciplinado. Foi transferido de escola e continuou aprontando. Dessa vez, ele andou empurrando um coleguinha de classe. Já conversei, já castiguei (tirei as coisas que ele mais gosta), mas até agora não surtiu efeito algum. E o mais engraçado é que quando ele está em casa ou na casa dos tios, é completamente diferente, a ponto de um amigo meu que trabalha na escola em que ele foi transferido questionar se todos falavam da mesma pessoa, pois o garoto que ele conhece é totalmente diferente do que todos dizem.

Li várias vezes tudo o que você me contou sobre seu filho. Há muitos dados importantes sobre os quais podemos pensar muitas coisas, mas antes de conversarmos sobre elas, vou fazer algumas perguntas. Essas perguntas servirão para você refletir um pouco sobre a história escolar de seu filho e, quem sabe, encontrar algumas respostas que a ajudem a entender o que está se passando.

• Há quanto tempo ele apresenta esse comportamento na escola?
• Houve algum fato que possa ter desencadeado o problema?
• A que você atribui essas atitudes? E ele?
• Ele se sente querido pelos professores e colegas? Por alguns, pelo menos?
• Sente-se respeitado?
• É ouvido na escola?
• Ele gosta de aprender?
• Essa foi a primeira vez que ele mudou de escola?
• Ele queria sair da escola em que estava? Por quê?
• Ele participou da escolha da atual escola?
• Ele gostava da escola anterior? E dessa escola?
• O que ele fala sobre a escola atual, sobre os professores e colegas?

Todos nós (família e escola) estamos habituados a ver sempre no aluno a causa dos problemas escolares. Ocorre que o problema não está só no aluno, mas como acreditamos sempre nisso, não conseguimos ver o problema sob outros pontos de vista. O aluno, por sua vez, acaba incorporando tudo aquilo que depositamos nele: indisciplina, desrespeito às pessoas e normas, falta de responsabilidade com as tarefas. Enquanto as pessoas – colegas, professores e família – continuarem olhando para ele como o "indisciplinado" e enquanto ele estiver acreditando ser aquilo que pensam dele, terá poucas chances de mudar. Você entende o que estou querendo dizer?

O problema está em algumas situações que ele vive na escola e nos seus desdobramentos: os sentimentos que essas situações despertam nele e nos outros, as reações que ele tem, as idéias que os colegas e professores têm dele, a imagem de estudante que a família construiu sobre ele, a imagem e os sentimentos que ele supõe que tenham por ele. Tudo isso compõe o quadro do problema e é esse quadro todo que precisa ser mudado. Não quero dizer com isso que a culpa seja da escola, porque isso é próprio das relações humanas e acontece em todos os lugares, na escola, na família, no trabalho.

Você mesma diz uma coisa muito importante sobre esse fato: em casa ou na casa dos tios, ele é totalmente diferente; tão diferente que seu amigo que trabalha na escola onde ele estuda duvidou que se tratava da mesma pessoa.

Mas como mudar um quadro tão complexo? Certamente, o ideal seria que a escola percebesse o problema dessa maneira, mas não podemos ficar esperando que isso aconteça. Talvez possamos trabalhar no sentido inverso e, quem sabe, mudar a situação de seu filho dentro da escola através dele mesmo.

Qual é o tom das suas conversas com ele, você o deixa falar? Você escuta e considera o que ele diz? Você troca idéias, tentando pensar junto com ele sobre as razões que o levam a se portar dessa maneira? Você repreende e aconselha, mais do que escuta?

Tente mudar o tom de suas conversas com ele: deixe-o falar e escute. Faça perguntas sobre a ocorrência do momento. Por exemplo:

• Por que você empurrou o fulano?
• O que ele fez que te incomodou?
• O que você sentiu quando ele fez isso?
• O que faz você ficar com tanta raiva?
• Ele sempre faz isso? Ele é assim com todos?
• Por que você acha que ele faz isso? Outras pessoas também fazem o mesmo?
• O que você acha que ele pensa sobre isso? Será que é isso mesmo que ele pensa? Ele já falou? Você já experimentou perguntar para ele?
• E você, o que pensa dele? Já conversou com ele para ver se ele é assim mesmo?
• Você já experimentou dizer para ele o que você sente quando ele faz isso?
• Você acha que se sentiria melhor se, em vez de empurrar, dissesse para ele o que sente?
• Quando outras pessoas fazem a mesma coisa, você fica tão incomodado?
• Por que com umas pessoas você sente de um jeito e com outras, sente de outro jeito?

Essas perguntas são alguns exemplos para que você possa entender o que eu quero dizer quando falo do tom da conversa. Entenda: não se trata de fazer um interrogatório. No momento certo, você faz alguma pergunta apenas para desencadear a fala dele. Você deve deixá-lo falar e acolher a sua fala. À medida que ele fala e você escuta, você o ajuda a escutar a si próprio. Escutando a si próprio, ele pode perceber coisas que não percebia antes, redimensionar o fato, ver o que está acontecendo com ele mesmo, o que está por trás de sua atitude, pensar melhor. A cada nova conversa, ele se sentirá diferente e isso poderá provocar mudanças nele.

Você também ao escutá-lo poderá reencontrar o filho que você conhece e mudar o olhar. Poderá se relacionar com ele sem que os problemas escolares estejam sempre atravessados no meio do caminho. Isso também poderá gerar mudanças, pois como eu já disse, as pessoas agem de acordo com as expectativas que depositamos nela e se tornam incapazes de ser o que gostariam de ser. Quando mudamos o olhar para uma pessoa, paramos de acentuar a história de que ela é isso ou aquilo, mudamos a relação com ela, ela se sente diferente e as coisas começam a melhorar.

Isso é o que deveria acontecer na escola também, mas você não pode promover mudanças dentro da escola, por isso achei melhor tentarmos o caminho inverso. De qualquer modo, você poderia pensar em algumas coisas:

• Todos os professores fazem a mesma queixa?
• Há algum professor que não se queixe dele? O que diz esse professor?
• Há algum professor de quem ele goste e a quem respeite? O que ele diz sobre esse professor?

Talvez você possa conversar com esse professor de quem ele gosta e respeita. Contar para ele como seu filho é em casa e como se sente diante de algumas coisas que acontecem na escola. Mostrar a ele uma criança diferente daquele que ele conhece no ambiente escolar. Quem sabe esse professor possa mudar o olhar que tem para ele e, aos poucos, mudar também o olhar dos outros professores e dos colegas.

Se você já tentou de tudo e nada surtiu efeito, experimente o que estou sugerindo. O processo pode ser lento, mas acredito que o caminho seja esse.

Você não precisa dar a ele as explicações que lhe dei porque de nada adiantariam. Elas servem apenas para você; servem para você entender os objetivos da minha proposta. Com ele apenas converse, como lhe sugeri.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.