Minha filha tem 4 anos e foi para a escola este ano. Apesar de ter um vocabulário bem trabalhado para sua idade, ela começou a falar palavras de forma errada por brincadeira e também para chamar atenção, devido ao fato de ter uma irmã de 2 anos, indicando regressão. O que podemos fazer para corrigi-la, já que a irmã mais nova está no início do desenvolvimento do vocabulário e acaba aprendendo errado também?


Você faz um relato curto sobre sua filha, mas que revela coisas importantes e interessantes sobre a vida familiar e sobre um dos valores que mobilizam sua relação com as filhas.

Parece que o assunto de que estamos tratando é o ciúme infantil. Sua filha tem 4 anos e parece que está se desenvolvendo de acordo com as suas expectativas, ou seja, está respondendo aos incentivos que vocês têm dado à sua aprendizagem. Ela tem uma irmã de 2 anos, que está num momento especialmente interessante e atraente para os adultos, repleto de respostas surpreendentes, engraçadas e reveladoras da inteligência infantil – o das primeiras palavras. Imagino que vocês (se me permitem) estejam investindo no desenvolvimento da filha menor tanto quanto investiram no da mais velha. Contudo, ela não está em casa para ver o que acontece e sim na escola, imaginando e fantasiando quantas coisas boas (que outrora eram dirigidas a ela) estariam acontecendo em casa com a irmãzinha.

Se ficarmos restritos à realidade, à observação pura e simples do ato, ou seja, da fala incorreta de sua filha mais velha, só poderemos entender como um sinal de regressão e este, quando é real, deve nos preocupar. Podemos, no entanto, observar a possibilidade de essa "regressão" ser um esforço de recuperar uma posição perdida, ou seja, uma manifestação saudável de ciúme. Saudável sim, porque o ciúme decorre do fato de que as crianças amam e as crianças que conhecem o ciúme e se conciliam com ele saem enriquecidas com tal experiência.

Todos nós sabemos que qualquer coisa que absorva a atenção e o tempo da mãe pode provocar ciúme. Sua filha mais velha já não se considera objeto de tanto investimento materno – já foi até enviada para a escola! Agora, o objeto de investimento é a irmãzinha que precisa aprender a falar direito. Ela já aprendeu! Para recuperar o que era seu é preciso falar errado novamente! Não é justo?

Vejam que nós estamos falando de sentimentos e não sobre a mente da criança. Penso que é sob esse ângulo que vocês devem olhar para esse comportamento de sua filha. O ciúme tende a desaparecer sem causar danos e também é fonte de desenvolvimento e crescimento.

Por que esse ciúme teria se manifestado agora?

A criança acumula boas lembranças progressivamente e quando ela desfruta muitas experiências agradáveis, torna-se capaz de privar-se um pouco de tudo a favor de outrem. Talvez, a entrada na escola no momento exato do desenvolvimento da irmã, tão carregado de valor para os pais – e como ela conhece esse valor! – tenha sido para ela uma mensagem: "Nós já ensinamos o que você precisava aprender e agora é a vez da sua irmã. Daqui para frente você vai aprender na escola".

Crianças pequenas sentem as coisas com muita intensidade e as ansiedades e conflitos são muito dolorosos para elas. Amar e odiar a irmã porque esta lhe roubou um lugar que era seu é um enorme conflito que ela poderia manifestar com birras e agressões à irmã, mas escolheu fazê-lo tornando-se igual a ela.

É importante que vocês continuem a oferecer um relacionamento estimulante e confiável e que atenda às suas necessidades. É importante antecipar para ela alguns acontecimentos para que ela não seja surpreendida sem defesas; para que ela saiba o que vai acontecer e continue confiando em vocês. É importante que vocês não se preocupem com a "regressão", nem projetem nela uma fonte de problema para o desenvolvimento da irmã menor (refiro-me ao receio de que ela sirva de modelo negativo para a fala da irmã). Preocupem-se apenas em continuar sendo com ela e para ela o que sempre foram e provendo o ambiente seguro e confiável que proveram até agora.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.