Meu filho tem 1 ano e 9 meses e até agora não fala. Sempre aponta para o que quer e diz "esse": se ele quer tomar água, aponta para o filtro e diz "esse", se quer algum brinquedo, aponta e diz "esse". Percebi que ele desenvolveu gestos para expressar o que quer e também uma linguagem própria. Segundo o pediatra, ele não tem problema de audição. Minhas dúvidas são: o fato de ficar na casa de meus pais (e não em uma escolinha) interfere no desenvolvimento da fala? O que posso fazer para estimulá-lo a falar?

Uma possível perda auditiva deve ser, de fato, a primeira hipótese a ser investigada quando a criança demora para começar a falar. Não havendo problemas de audição, temos que levantar outras hipóteses a partir da história de vida da própria criança. Você mesma já fez isso e com muita propriedade. Vamos pensar juntas sobre cada uma delas:

"(...) desenvolveu gestos para expressar o que quer e também uma linguagem própria"

Você me diz que ele entende tudo, mas não fala. Isso significa que ele está desenvolvendo a linguagem, ou seja, não há problemas de ordem cognitiva. Se ele produz sons da fala, mesmo que numa linguagem própria, podemos supor também que não há problemas com os órgãos fonoarticulatórios.

Então, por que ele não estaria falando, se não há problema algum que o impeça de fazê-lo ao que tudo indica?

"(...) o fato de ficar na casa de meus pais (e não em uma escolinha) interfere no desenvolvimento da fala?"

Você não me disse, mas imagino que a linguagem e os gestos que ele desenvolveu para se comunicar estejam sendo, de alguma maneira, eficientes. Suas necessidades básicas, no mínimo, são atendidas prontamente, principalmente pelos avós – penso eu –, com quem ele passa a maior parte do tempo. Sabemos bem como a maioria dos avós se relaciona com os netos, particularmente com netinhos dessa idade! E você, que trabalha o dia todo, quando pode estar com ele, talvez muito preocupada em compensar a sua ausência, não se dá conta de quanto se comunica com ele mesmo que ele fale tão pouco.

Não pense você que estou censurando-a. Estou apenas tentando ajudá-la a tomar consciência do que pode estar se passando, até porque esse é um fato bastante comum. Fique, então, atenta e observe a si própria e a seus pais quando estão com ele, apenas para verificar se as minhas suposições estão corretas.

Se isso for verdadeiro, a primeira atitude deve ser a de mostrar a ele que a sua linguagem, embora eficiente para alguns propósitos, não está adequada, nem é suficiente. Não se trata de deixar de atendê-lo, mas de exigir um pouco mais e de ensinar.

Quando ele apontar o filtro, por exemplo, pergunte: "Você quer água?". Ao entregar-lhe o copo, diga: "Isso é água, água. Quando você quiser água, você deve dizer 'quero água', senão as pessoas não vão entender. Tente falar: água. Olhe como eu faço: água". (Aponte sua boca e chame a atenção dele para que olhe os movimentos, nada mais do que isso. O objetivo é apenas oferecer uma referência a mais).

Isso é apenas um exemplo do que você pode fazer para ajudá-lo nas situações cotidianas. É lógico que você vai falar com ele do jeito que você achar melhor. As frases que eu usei são apenas para ilustrar a atitude que você deve tomar.

Sente-se com ele e folheie um livro com figuras. Aponte as figuras e dê nomes para que ele repita. Leia histórias para ele e aponte as figuras para que diga os nomes. Produza sons onomatopaicos (barulho de avião, barulho de chuva, sons de animais etc.) e peça-lhe que tente reproduzi-los.

A reprodução de onomatopéias é um ótimo exercício fonoarticulatório e as crianças gostam muito. Brinque com ele de fazer os sons dos animais e outros sons quaisquer.

Cante para ele canções infantis e incentive-o a tentar cantar também. Faça o mesmo com os poemas infantis. As rimas facilitam a memorização, além de agradarem às crianças.

Converse bastante com ele, sempre incentivando ele a repetir algumas palavras, a tentar falar.

Não se preocupe em exigir que ele fale corretamente. A articulação dos sons vai melhorando com o uso, à medida que ele compara a sua própria produção com a dos outros e tenta torná-la cada vez mais parecida com o que ouve.

No início, é importante apenas que ele tente produzir alguma coisa. Isso sim, você pode exigir. Se, ao tentar dizer água, ele disser apenas "a", aceite, mas repita a seguir a forma correta para que ele possa monitorar a própria produção.

Quanto à escola, sem dúvida nenhuma o contato diário com outras crianças, além das atividades escolares, favoreceria muito o desenvolvimento da fala e da linguagem. Isso não quer dizer, entretanto, que deixar de ir à escola, por enquanto, interfira negativamente. Ele pode aprender a falar mesmo não freqüentando a escola.

Se, no momento, for difícil para você colocá-lo numa escola, vá fazendo o que lhe sugeri e observe a evolução. Mas, cuidado, não fique ansiosa: evoluir não significa começar a falar de uma hora para outra, significa passar a falar o que não se falava antes, mesmo que de forma incorreta.

Após dois ou três meses, se você não observar nenhuma evolução, sugiro que você procure um fonoaudiólogo, pelo menos para uma avaliação.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.