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Meu filho
tem 4 anos e quero transferi-lo para uma escola que usa a língua
inglesa para alfabetizar. Como isso poderá afetá-lo, caso queira
estudar em uma faculdade brasileira?
Ele teria alguma desvantagem em relação aos seus companheiros, principalmente
no vestibular ou em qualquer outra fase de sua vida estudantil?
Para tomar uma decisão como essa, penso que seria importante
considerar alguns fatores:
A escola
em questão é brasileira?
Você não mencionou nada a esse respeito, mas vou levantar
algumas questões que poderão ajuda-lo a pensar, considerando
que a escola não seja brasileira.
Essas escolas não apenas ensinam em língua inglesa,
mas possuem também o currículo e o calendário
escolar diferentes, de acordo com a origem da escola. São
freqüentadas por estrangeiros que, em sua maioria, residem
temporariamente no Brasil. Os professores também são,
predominantemente, estrangeiros. Assim:
As
férias escolares não coincidem com as das escolas
brasileiras.
Os conteúdos de História e Geografia do Brasil
não têm a mesma complexidade do que nas escolas brasileiras.
A cultura e os problemas brasileiros não são
tratados com o valor e a importância que têm para
nós, brasileiros.
A comunidade escolar tem costumes, tradições
e valores diferentes dos nossos.
Tente pensar,
por exemplo, em que medida seria importante para seu filho passar
as férias com os primos ou com amigos de outras escolas,
ou seja, como seria aborrecido para ele estar de férias quando
os outros não estão (principalmente se considerarmos
que os amigos de sua nova escola poderiam estar em seus países
de origem). Em que medida ele sentiria falta de companheiros de
escola que vibrassem e sofressem pelo mesmo time de futebol; ou
que torcessem junto com ele pelo Guga; ou que se indignassem tanto
quanto ele, por exemplo, com a pretensão de alguns países
de separar a Amazônia do Brasil; ou que partilhassem com ele
as preocupações por um Brasil melhor.
Algumas situações
são do cotidiano, aparentemente pouco importantes, mas do
ponto de vista da criança seria assim? Outras são
relacionadas à formação da identidade cultural
e da cidadania brasileira, embora não possamos afirmar que
seriam prejudicadas. Em contrapartida, ele aprenderia uma segunda
língua como se fosse um nativo, conheceria outras culturas
pelos amigos da escola, poderia ter amigos em diversas partes do
mundo e teria, talvez, uma formação acadêmica
melhor.
Ser alfabetizado
numa língua estrangeira traz desvantagens?
O domínio de uma língua, na fala ou na escrita, está
diretamente relacionado ao uso dessa mesma língua. Aprender
a ler e escrever numa língua estrangeira não dificulta
a aprendizagem posterior da escrita da língua materna. O
que vai determinar a proficiência em uma ou outra língua
será o uso da escrita. A língua menos usada estará
sempre em desvantagem e seu uso poderá até ficar comprometido
se for pouco utilizada.
Se você
quiser refletir um pouco mais sobre a aprendizagem precoce de língua
estrangeira, sugiro que você leia uma resposta que escrevi
a respeito (Meu filho
está no ensino infantil...).
Se a sua maior
preocupação for a aprendizagem da língua inglesa,
pense na facilidade que nossos filhos têm atualmente de cursar
línguas e conviver com estrangeiros em universidades dos
EUA ou Inglaterra. Também é fácil, hoje em
dia, morar fora do país por meio de programas de intercâmbio
de estudantes.
O desempenho
no vestibular pode ser prejudicado? (Se até lá ainda
houver vestibular!)
Os assuntos relacionados ao Brasil e os termos técnicos específicos
das disciplinas exatas poderiam prejudicar o desempenho no vestibular,
mas seu aprendizado pode ser facilmente compensado nos cursinhos
pré-vestibulares. A desvantagem residirá no uso da
língua portuguesa, caso o aluno esteja pouco familiarizado
com a escrita, mesmo que seja falante da língua. Isso porque
a linguagem escrita tem características próprias que
só podem ser aprendidas pelo texto escrito. A aprendizagem
da língua escrita, em toda a sua complexidade, demanda tempo:
é preciso escrever e ler muito os diversos gêneros
literários para aprender. Com vontade, empenho e um pouco
mais de tempo, no entanto, é possível recuperar as
falhas que porventura existirem.
Bem, penso que
esses fatores sejam importantes para a sua reflexão, mas,
acima deles, deve estar a proposta pedagógica da escola,
qualquer que seja ela, os princípios de ensino-aprendizagem
que a norteiam e os valores sociais e humanos que a sustentam. Pessoalmente,
acredito que as escolas devam acreditar na capacidade de pensar
da criança e no seu desejo de aprender, valorizar e respeitar
as diferenças culturais e individuais e realizar um trabalho
comprometido com a formação de seres humanos melhores.
Espero que minhas
considerações possam ajudá-lo nessa difícil
tarefa que é escolher a escola de nossos filhos.
Um abraço,
Elisa
Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
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