Tenho uma filha de 2 anos e 4 meses. Ela já está na escola e adora ir, mas estou recebendo reclamações de que ela está mordendo os coleguinhas, além de chamá-los de idiotas. Em casa, ela morde quando não consegue algo que deseja. Em outros momentos, ela é carinhosa e meiga. Isso é normal? Será que ela é hiperativa? Pretendo levá-la em um psicólogo...

Você menciona dois problemas em sua carta: a mordida e a suspeita de hiperatividade. Sua pergunta "Será que ela é hiperativa?" sugere que você está relacionando as duas coisas e eu preciso dizer que hiperatividade e agressividade (se é que sua filha é agressiva) são coisas distintas e não fazem parte do mesmo quadro.

A hiperatividade é um conjunto de sintomas, dentre os quais, destacam-se a agitação excessiva e a mudança constante de atividade.

Morder ou ter qualquer outra atitude agressiva é a forma que as crianças manifestam seu desagrado, sua raiva. Você mesma disse que ela morde quando não consegue algo que deseja. Nem todas as crianças mordem ou praticam qualquer outra forma de agressão, porque cada uma tem um nível de tolerância para frustrações, decepções, enfim, coisas que as incomodam. Cada uma desenvolve uma maneira própria de dizer que algo está incomodando.

Sua filha, por alguma razão, diz isso mordendo e filhos que mordem incomodam e preocupam os pais não só porque machucam as outras crianças, mas, principalmente, porque o olhar acusador dos adultos nos incomoda. Ninguém diz nada (alguns até dizem!), mas é como se ouvíssemos comentários do tipo "como sua filha é agressiva! Você não a educa?". Pensar, também, que nossos filhos podem ser discriminados e segregados na escola ou que podem vir a ser adultos agressivos nos preocupa e muito.

São essas preocupações que nos mobilizam a procurar ajuda de especialistas e, às vezes, nos apressamos desnecessariamente.

Vou lhe fazer uma sugestão: As crianças não sabem falar sobre seus sentimentos e nós podemos ajudá-las, falando por elas. Nas próximas vezes em que sua filha morder alguém, sente-se com ela e converse sobre o assunto. Faça perguntas, espere as respostas e ajude-a a reconhecer e entender os próprios sentimentos:

• Porque você mordeu fulaninho?
• Porque ele pegou o seu brinquedo?!
• Isso deixou você brava?
• Você sentiu raiva dele?
• Você sentiu muita raiva ou só um pouco?
• Sempre que você sente muita raiva tem vontade de morder?
• A sua raiva vai embora depois que você morde?
• E quando a raiva é pequenininha, o que você faz?
• Você acha que ele gostou de levar uma mordida?
• E se em vez de morder, você disser que está muito brava, com muita raiva porque ele pegou seu brinquedo, você acha que também não ajuda a passar a raiva?
• Você não quer experimentar fazer isso da próxima vez?
• Experimente e depois você pode me dizer se a raiva passou ou não. O que você acha?

Conversas como essas poderão ajudá-la a entender os próprios sentimentos e, então, passar a expressá-los de uma outra forma.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.