Meu filho tem 2 anos e meio e sempre quando quer alguma coisa ou quando não fazemos sua vontade, grita e faz muito escândalo. O que devemos fazer? Bater ou colocá-lo de castigo?



Antes de simplesmente dizer se vocês devem bater ou botar seu filho de castigo, vamos conversar um pouco sobre o não para que vocês tenham elementos para pensar sobre o assunto e tomar a atitude que considerarem apropriada para cada situação.

Há três etapas importantes na vida da criança relacionadas ao não. Elas se sobrepõem: uma não termina quando começa a seguinte.

Os primeiros nãos dizemos ao mundo e não à criança. Quando cuidamos de nosso bebê, estamos protegendo-o das adversidades, estamos dizendo não ao mundo. Na verdade, essa etapa é um grande sim porque nunca faltamos ao bebê, nunca o decepcionamos. Esse sim confere a base sólida para a vida da criança, pois dessa forma ela se sente segura e absorve para si a confiança que temos em nós mesmos.

O resultado dessa primeira etapa é o sentimento de "responsabilidade dos pais", sentimento que revela à criança a diferença que existe entre pais e filhos. Pais são pais e filhos são filhos – temos que cuidar para manter essa diferença ou corremos o risco de não educarmos nossos filhos. Quando tentamos reduzir essa diferença sob o pretexto de nos tornarmos amigos e companheiros de nossos filhos, perdemos justamente aquilo que dá legitimidade ao ato de educar.

Na segunda etapa, também começamos a dizer não aos filhos. Assim, permitimos que ele conheça parte dos perigos contra os quais o protegemos. Temos que permitir que o mundo atravesse as barreiras que criamos ao seu redor para que ele comece a desenvolver seus próprios métodos de defesa e de previsão dos acontecimentos. Com o não, dizemos as espécies de comportamento que afetam o amor que temos por ele, além de o colocarmos em contato com a realidade.

Temos duas maneiras de apresentar a realidade ao nosso bebê: o sim e o não. A proibição é tão importante quanto a permissão, mas não podemos dizer não a tudo e superprotegê-lo. O mundo do bebê precisa se expandir, por isso o número de objetos e de situações às quais dizemos sim também precisa crescer. Não é verdade que permitimos muito mais do que proibimos? Se não fosse assim, nossos filhos jamais sairiam do "chiqueirinho". Na realidade, o sim é a base à qual acrescentamos o não.

Finalmente, quando podemos nos comunicar com nossos filhos, começa a terceira etapa: a fase das explicações. Agora, podemos usar a linguagem para explicar nossos nãos e, assim, ganhamos a sua cooperação. Porém, ao contrário do que pensamos nesses tempos modernos, as explicações não precisam ser científicas. Basta que acreditemos nelas: "Não, porque está quente"; "Não, porque você pode se machucar"; "Não, porque não quero"; "Não, porque não gosto"; "Não, porque não pode" ou simplesmente "Não, porque não".

Como, quando e por que devemos dizer não?

Não há regra que determine quando e como devemos dizer não aos nossos filhos: nós, pais, sabemos (muito mais do que qualquer pessoa) o que é melhor para eles e é isso o que vai determinar as nossas negativas. Importa que tenhamos bem claro em nosso espírito o que devemos permitir e o que não devemos. Importa, também, que sustentemos o nosso não e que o façamos em nome do nosso próprio saber. Não é em nome de outro ou em nome da teoria de plantão que devemos dizer não. Devemos fazê-lo em nosso próprio nome. Precisamos sustentar o nosso não para que a criança compreenda e não é possível sustentar algo que dizemos em nome de outrem. Podemos até fazer coisas horríveis, mas nada é pior para a criança do que ficarmos em cima do muro, deixando-a à mercê de seu próprio julgamento. O nosso papel de pais, a diferença entre pais e filhos que mencionei no início, nos autoriza a dizer não quando acreditamos que assim deva ser. Deixar de agir ou dizer sim por medo de errar é o pior que podemos fazer a eles. Na educação de nossos filhos, a perfeição não importa muito. Muito do que está errado é corrigido – suficientemente ou não – com o tempo.

O ritmo e a maneira como se processam as três etapas dependem tanto da criança como dos pais. As crianças são muito diferentes no modo como se desenvolvem e não temos que nos preocupar em impor a elas o nosso próprio ritmo, basta que a acompanhemos e que estejamos certos de estarmos fazendo o melhor que podemos.

Bem, seu filho está com 2 anos e meio e não aceita que vocês digam não. Tenta impor sua vontade pela birra.

Acredito que, após essas considerações, vocês já tenham identificado algumas coisas que possam estar gerando esse tipo de comportamento. Talvez, por motivos que não importa saber, vocês não tenham conseguido dizer não com a tranqüilidade e firmeza necessárias para que ele compreendesse e aceitasse. Mas isso ainda pode ser feito, sem medo e, principalmente, sem culpa. Não fiquem agora preocupados achando que cometeram erros. Se a minha suposição estiver correta, quem está sofrendo as conseqüências desse "erro" são vocês, não ele. Vocês é que precisam enfrentar as situações desagradáveis que – nós sabemos bem – as crianças birrentas criam. Também encontrarão dificuldade para mudar o que está estabelecido, mas não tenham dúvidas de que conseguirão. Não duvidem também de que é exatamente isso o que ele quer. As crianças pequenas gostam que digamos não, assim como gostam de ser mimadas.

Castigar ou aplicar a ocasional palmada poderá ser necessário em alguns momentos e vocês saberão como e quando fazê-lo.

Vão em frente e cuidem desse "furacãozinho" que têm em casa
com a sabedoria que têm os pais que querem o melhor para os
seus filhos.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.