Tenho uma filha de 4 anos e toda vez é uma briga para que ela se alimente direito nas refeições. Existe algum macete ou truque para que ela coma alimentos mais saudáveis (frutas e verduras) no lugar de guloseimas, sem tantas
discussões e desgaste de
ambas as partes?

Conheço bem esse problema que você relata e é realmente um grande desgaste para a família toda e uma enorme preocupação para os pais, já que comer é uma questão de sobrevivência.

Muitas coisas podem estar em jogo quando a criança rejeita alimentos. Por exemplo, sua filha pode estar tentando preocupá-lo ou ocupá-lo com ela. Pode ser, também, uma manifestação de ciúme de um irmãozinho. Enfim, ela está tentando dizer alguma coisa e é isso o que precisamos descobrir para que ela volte a comer, ou melhor, a se alimentar bem.

Você diz que ela come guloseimas e se isso acontece é porque ela as encontra ou porque alguém permite e, de uma forma saudável ou não, ela se alimenta e não sente mesmo vontade de comer outras coisas. Uma idéia seria impor de forma mais rigorosa uma disciplina: guloseimas só na hora do lanche, por exemplo. Enquanto ela puder substituir o arroz e feijão das refeições por guloseimas, é claro que rejeitará e fará birra até que consiga o que quer. Veja que isso ela já deve ter aprendido: "Se eu não comer a comida, meus pais me darão salgadinho porque eles não agüentam me deixar sem comer. Então eu vou fechar a boca até que eles desistam e me dêem o que eu quero". Veja também que controle fantástico ela consegue exercer sobre vocês. Isso não é o máximo?! "Toda a família se descabela ao meu redor e eu fico aqui só observando e esperando que eles se rendam". E note: isso acontece todos os dias, pelo menos duas vezes por dia! Penso que essa seja a primeira questão sobre a qual vocês devem pensar.

Na educação alimentar, também é importante que o horário e o local das refeições sejam respeitados. Às vezes, lançamos mão de qualquer recurso na tentativa de fazer nossos filhos comerem e os levamos para a frente da TV ou corremos atrás deles com o prato de comida, ou ainda, levamos eles para o quarto na esperança de que comam enquanto brincam. O resultado é que nem sempre somos bem-sucedidos e ainda deixamos de discipliná-los. A rotina é fundamental na educação das crianças porque estabelece hábitos e disciplina o comportamento.

Outro recurso que o desespero pode nos levar com freqüência são as promessas. Prometemos qualquer coisa para que eles comam, até mesmo aquilo que tentamos evitar: os terríveis salgadinhos, por exemplo. As promessas não ensinam a criança, apenas reforçam o controle dela sobre os pais. Sabemos muito bem que prometer alguma coisa para obter algo em troca é uma forma de chantagem: é o que estamos ensinando com a melhor das intenções!

Ela não come nada que seja mais saudável do que guloseimas de fato? Ou ela come, mas vocês consideram insuficiente? Há crianças que ficam satisfeitas com pouca comida porque é isso que lhes basta. E elas crescem e se desenvolvem de forma saudável. Vocês já pararam para pensar se não são pais excessivamente preocupados com a alimentação dos filhos?

Em que medida vocês mesmos não criaram as condições para que essa situação se estabelecesse? Em que medida não estariam mantendo-a? Cabe a vocês, não a ela, romper essa situação que se repete a cada refeição. Para ela, está tudo muito bem porque em dois momentos do dia, pelo menos, toda a família se volta para ela, mesmo que isso lhe custe até umas palmadas de vez em quando.

Não sei se vocês têm o hábito de sentar juntos à mesa na hora das refeições. Nos dias atuais, talvez esse seja o único momento (e, muito provavelmente, uma única vez ao dia) em que a família se reúne e tem a possibilidade de conversar sem competir com a televisão.

Não sei também se sua filha faz as refeições com vocês e se a refeição dela é a mesma do restante da família. Caso não seja assim, faço-lhe essa sugestão: ela poderia desfrutar esse momento tão agradável e rico da vida familiar, compartilhando experiências, contando e ouvindo as novidades, os fatos engraçados, falando sobre a escola, ouvindo-os falar sobre o trabalho ou comentar os acontecimentos do mundo e da família. Conversas sobre o valor nutritivo dos alimentos e a importância da alimentação saudável poderiam ser introduzidas sem o peso do discurso corretivo. Ela também aprenderia a comer comidas mais saudáveis e a portar-se na mesa, pelo exemplo de vocês.

Às vezes, não nos damos conta de que nossos filhos cresceram o suficiente para mudarmos algumas situações e as prolongamos por mais tempo do que o necessário.

Certamente vocês conseguirão alguma coisa se mudarem de atitude. Vocês podem, por exemplo, aceitar que ela escolha, dentre os pratos disponíveis, aquilo que vai comer e também a quantidade. Aceitem sem discussão o que ela escolher, mas exijam que coma até o fim, já que a escolha foi dela. Acho até que vocês devem fazer um "combinado", como se diz nas escolas. "Nós vamos permitir que você escolha o que e quanto vai comer dentre as coisas que estão na mesa, mas você tem que fazer a sua parte: comer tudo". Mesmo que vocês achem pouco, não tentem depois compensar oferecendo outras coisas. Aceitem com a tranqüilidade de quem acredita no que está fazendo e sem medo de que ela vá passar fome ou ficar desnutrida. Isso não vai acontecer.

Este é um aspecto que deve ser considerado, mas não o único. Acho importante que vocês tentem pensar em outras coisas que possam estar envolvidas ou que possam ter desencadeado o problema. Para ajudá-los, vou propor algumas perguntas para vocês pensarem:

• Há quanto tempo isso começou? Sempre foi assim?
• Algum fato novo aconteceu na família ou na vida dela quando o problema começou? Você se lembra de algum acontecimento concomitante que possa ter desencadeado a falta de vontade
de comer?
• Tente se lembrar das diferentes fases da alimentação: ela foi amamentada? Por quanto tempo?
• Como foi a passagem do aleitamento materno para a mamadeira ou para a papinha? Ela aceitou bem? Comia bem as papinhas? Tinha preferência por algum alimento?
• Os alimentos sólidos foram bem aceitos? Tinha dificuldade para mastigar e engolir?
• Havia algum alimento que rejeitava sistematicamente? Algum que provocava náuseas? Vocês exigiam que ela comesse tais alimentos?
• Vocês ofereciam comida demais? Exigiam que comesse tudo?
• Vocês permitem que ela escolha o que vai comer e quanto?
• E hoje, há algum alimento de que ela goste que não seja guloseima?
• Quem a alimentava quando era menor? E hoje?
• Quando começou a comer sozinha? Quando começou a escolher a comida ou a rejeitar algumas delas?
• Come melhor quando está fora de casa? Em casa de amiguinhos, por exemplo? E na escola? Come em festas?
• Come melhor longe dos pais?
• Que tipo de preocupação essa situação provoca em você? Caso o problema seja antigo, qual era a sua atitude anteriormente? E a da mãe? Vocês partilham essa preocupação ou pensam de modos diferentes?
• Ela respira pelo nariz? Às vezes, crianças que têm respiração bucal não gostam de comer, pois respirar pela boca e comer ao mesmo tempo é uma tarefa difícil. A respiração bucal também pode alterar
o paladar.

Parece que lhes fiz uma sabatina, mas estou apenas tentando ajudá-los a pensar. Pensem juntos sobre o que conversamos, tentando conhecer o entorno do problema e reconhecer possíveis causas. Não depositem o problema em sua filha porque este, certamente, não é só dela.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.