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Meu filho
tem 7 anos e meio e está na 1ª série do ensino fundamental. Todo
dia telefono para casa e a primeira coisa que ele me diz é
se tem dever e em que quantidade. Quando chego em casa, a primeira
coisa que ele diz é se fez ou não a tarefa. Depois
verifico o que tem para ser feito. Tento reverter essa ansiedade,
dizendo que estou com saudades e pedindo que sente em meu colo,
mas ele quer me mostrar o que tem para ser feito. Alguns dias, faz
uma ou outra lição; em outros, não faz nenhuma.
Diz para minha mãe que vai me esperar para que eu o ajude,
pois a lição é muito difícil. Vejo que
não é nenhum bicho-de-sete-cabeças e até
finjo que não estou entendendo. Ele chama minha atenção
e tenta me explicar a lição. Sento ao seu lado, procuro
me ocupar com outras coisas e, quando vejo que está mesmo
com dificuldade, tento esclarecer. No período de avaliações,
passo alguns deveres para ele, que fica irritado e diz odiar essas
tarefas. Fica impaciente quando tem mais de uma folha para fazer.
Há muitas coisas em seu relato sobre os quais podemos pensar.
Você diz:
"Alguns
dias faz uma ou outra lição; em outros, não
faz nenhuma"
"(...) vejo que não é nenhum bicho-de-sete-cabeças
e até finjo que não estou entendendo. Ele chama minha
atenção, tentando explicar-me a lição.
Sento ao seu lado, procuro me ocupar com outras coisas..."
Algumas lições
ele faz sozinho, outras não. Quando você está
ao lado, ele não solicita ajuda e, quando você finge
não entender, ele lhe explica a tarefa. Essas situações
me fazem supor que ele tem os conhecimentos necessários para
fazer as lições de casa sozinho. Não de todas
elas, o que é natural, visto que as dúvidas são
próprias da aprendizagem.
"Todo
dia telefono para casa..."
"Quando chego em casa, a primeira coisa que ele diz
é se fez ou não a tarefa. Depois verifico o que tem
para ser feito."
"(...) e quando vejo que está realmente com dificuldades,
tento esclarecer."
Você telefona para casa todos os dias. Por que você
faz isso? Já se fez essa pergunta? Se ele está com
sua mãe, suponho que não é com o seu bem-estar
que você está preocupada.
Parece-me que
ele não pede ajuda quando faz as lições ao
seu lado. Você antecipa as dificuldades dele e oferece ajuda.
Você já experimentou deixá-lo fazer sozinho
até o fim? O que aconteceria se você se levantasse
de vez em quando para fazer uma coisa qualquer?
"No
período de avaliações, passo alguns deveres
para que ele tente fazer, só que ele fica irritado e fala
que odeia os deveres que passo."
Por que você passa essas tarefas? Receia que ele não
se saia bem nas provas? O que a faz supor que isso possa acontecer?
Veja que ele manifesta claramente não gostar disso e mesmo
assim você insiste. Talvez ele esteja tentando dizer que não
precisa estudar mais. Será mesmo necessário ajudá-lo
a estudar para as provas?
Você percebe que há um paradoxo nessa situação?
Ele espera você chegar para fazer as tarefas, embora demonstre
não precisar de sua ajuda. Quando você, por sua própria
iniciativa, tenta ajudá-lo a estudar para as provas, ele
rejeita a ajuda.
Você ainda me diz:
"Tento reverter essa ansiedade..."
Não pense que a estou censurando, mas você não
estaria atribuindo a ele a sua própria ansiedade? Tentei,
pelas perguntas que fiz, conduzir o seu pensamento para que você
mesma fizesse essa pergunta. Não sei se consegui, por isso
acabei fazendo eu mesma.
O modo de ele agir em relação à lição
sugere, de fato, alguma ansiedade. É a primeira coisa que
ele menciona ao telefone e também quando você chega
em casa, trocando o colo pela lição. Talvez a ansiedade
não esteja ligada ao ato de fazer a lição nem
às dificuldades porventura existentes, mas a uma relação
que ele estabeleceu entre a lição de casa e você.
Como se a lição fosse um compromisso que ele tem com
você, como se não se sentisse autorizado a fazer tudo
sozinho. E se ele a decepcionasse? E se ele a fizesse sentir desprestigiada
e abandonada? Talvez, sem saber, esse seja o receio dele. E, nesse
caso, a ansiedade seria provocada não pela lição
em si, mas pela vontade de cumprir logo a sua tarefa, a sua obrigação
de estudante.
Tente mudar aos poucos a sua atitude. Deixe de ligar de vez em quando
e observe o resultado. Tente ficar por perto enquanto ele faz as
lições, mas não sentada o tempo todo ao lado
dele. Não vigie seus cadernos, não é necessário
fazer isso diariamente e você pode mostrar o seu interesse
por ele e pelas coisas da escola de outras formas. Tente ficar tranqüila
e deixe que ele assuma as responsabilidades de estudante, afinal
o estudante é ele. Não pense que fazer isso é
ser uma mãe negligente. Ele tem apenas 7 anos, mas nada do
que a escola solicita está além de suas possibilidades
(você acredita na escola, não é?). Se ele não
assumir para si, agora, as tarefas da escola, poderá ter
dificuldades de fazê-lo mais tarde. Não tenha receio
de que ele se sinta abandonado, pois me parece que é exatamente
isso o que ele quer, afinal ele já é um estudante
da 1ª série! Ele já não está mais
no pré!
Vá em frente! Você precisa mostrar que confia nele
e que acredita em sua capacidade e autonomia para fazer as tarefas
escolares. Só não mude tudo de uma hora para outra
porque ele pode não entender, ficar confuso e se sentir inseguro.
Um abraço,
Elisa
Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
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