Minha filha tem 6 anos e duas irmãs mais novas. Ela é muito ciumenta e diz que se acha feia e que ninguém gosta dela, ou seja, sua auto-estima é superbaixa. O que devo fazer para reverter isso?


Li sua pergunta e fiquei pensando: crianças dessa idade não fazem esse tipo de juízo de si mesmas, não se acham feias. A não ser que ela seja muito diferente das irmãs ou tenha escutado algum comentário sobre isso. Não creio que seja esse o problema, acho que a feiúra à qual ela se refere seja de outra ordem, embora ela não saiba disso.

Ela tem ciúme das irmãs, o que é muito natural, afinal ela perdeu espaço para elas nos cuidados e atenções dos pais e isso é real, um fato que não podemos negar. Seus pais agora têm mais duas filhas com quem devem dividir o tempo e as preocupações, que antes eram destinados somente a ela.

Antes de continuarmos, vou pedir que leia uma resposta que escrevi sobre esse mesmo assunto, o ciúme infantil – Minha filha de 4 anos começou a falar palavras de forma errada...

Você viu que o ciúme é um sentimento ambivalente: a criança sente amor e ódio ao mesmo tempo. Sente inveja também, inveja daquilo que a irmã tem e que ela supõe ter perdido: a atenção e o amor dos pais. Sente muita raiva da irmã, dos pais, do mundo todo. Tanta raiva a ponto de desejar que a irmã morra. Talvez você já tenha escutado coisas como: "Eu tenho vontade de matar a minha irmã!", de sua filha ou de outras crianças. Isso é muito comum porque esse é o sentimento básico: acabar com aquilo que a está ameaçando. E isso não é horrível? Detestar tanto as próprias irmãs a ponto de desejar que elas desapareçam?

Imagine você, se minha suposição estiver correta, a angústia que ela está vivendo. Para escapar dessa angústia ela criou essa fantasia: "Eu sou feia!". Na verdade, ela está se achando feia mesmo, mas por ter pensamentos ruins dirigidos às irmãs. As irmãs que ela também ama. Ela reconhece esse sentimento e sabe também que perdeu parte da atenção dos pais, mas ganhou duas irmãs com quem pode brincar e partilhar situações gostosas. No entanto, não pode considerar a perda e o ganho ao mesmo tempo e quando o sentimento da perda prevalece, vêm a raiva, a inveja e o ciúme.

Algumas crianças brigam muito com os irmãos de quem sentem ciúmes, outras são amigas, solidárias e carinhosas. Qualquer que seja o comportamento manifestado, o sentimento escondido por trás é o mesmo. Parece-me que é essa a feiúra que ela sente: a que ela acredita ter no coração. O sentimento ruim e detestável que, em algumas ocasiões, ela tem pelas irmãs.

Você está preocupada porque sua filha está com a auto-estima muito baixa. Auto-estima é a importância ou o valor que atribuímos a nós mesmos. Poderíamos até imaginar que ela pensa assim: se perdeu a exclusividade do amor dos pais é porque as irmãs teriam atributos melhores do que os seus para conquistá-los. Não creio que seja esse o problema: ela se sente importante para os pais, não duvida de que tenha atributos para continuar sendo amada por eles tanto quanto as irmãs. O problema está naquilo que ela perdeu de fato: o tempo e a dedicação dos pais que eram exclusivamente dela e já não são mais. É essa perda que desperta o ciúme e, conseqüentemente, a raiva, o desejo de que as irmãs não existissem, a inveja do que ela supõe que elas tenham a mais. Esses sentimentos assustam e, por conta disso, ela se sente feia, mas feia por dentro. Portanto, não é o que não possui que faz ela se sentir assim, mas o que perdeu.

Ela não tem como saber de seus sentimentos, muito menos compreendê-los, pois são sentimentos novos com os quais ela está entrando em contato agora. Por isso atribui a feiúra ao aspecto físico – que é o que ela vê e conhece –, mas não é aí que está a feiúra que a incomoda. Achar-se feia é uma fantasia, é a forma inconsciente de explicar para si mesma os próprios sentimentos. E também de se punir.

Você pode ajudar sua filha conversando com ela. As crianças não são capazes de reconhecer e compreender os próprios sentimentos, principalmente quando são sentimentos que as assustam. Elas sentem apenas a angústia que eles provocam. É preciso dar nome ao que elas sentem para que os sentimentos se transformem em algo que possa ser reconhecido.

Aproveite alguma situação de conflito entre ela e as irmãs para desencadear uma conversa. Pergunte o que ela está sentindo e espere a resposta. Pergunte se tem raiva das irmãs, de você, do pai. Faça de modo que ela se sinta tranqüila para responder sem medo. "Por que sente raiva? Como é essa raiva?". Dê exemplos de situações em que você mesma sentiu raiva de alguém. Pergunte-lhe em que situações a raiva é maior ou menor. Fale sobre a inveja, explique o que é, dê exemplos, pergunte se ela sente inveja das irmãs. Diga que isso que ela sente tem o nome de "ciúme" e explique o que é. Ajude-a a falar e dar nomes aos sentimentos. Não faça julgamentos nem dê lições de moral porque o seu próprio julgamento já é suficiente. Importa apenas ajudá-la a falar para que ela possa entender o que se passa em seu coração. Reconhecer a raiva, a inveja e o ciúme e perceber que eles são reconhecidos pela mãe como algo natural, sem repreensão e recriminação, irá ajudá-la a separar a fantasia do fato concreto. Ela poderá desfrutar a chegada das irmãs como um ganho e não como algo que veio para tomar o que era seu. E a fantasia da feiúra tenderá a desaparecer.

Espero ter conseguido ajudá-la a compreender o que se passa com sua filha e tenho certeza de que você vai conseguir ajudá-la a ultrapassar esse momento.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.