Minha filha vai fazer 4 anos no dia 29 de agosto. Ela não está na escola, mas já escreve muitas palavras e nomes conhecidos, conta até 50, conhece todas as letras e números, enfim, ela aprende tudo com muita facilidade e isso tudo sem eu ou minha esposa pressioná-la. No mês passado, ela queria que eu ditasse uma parte de uma música que ela canta para ela escrever e eu disse que ainda é muito cedo para que ela escrevesse a frase toda. Agi certo ou errado? A frase é "Tô viajando na onda dessa menina que dá aula de inglês e toma vinho português".


Não há dúvidas de que sua filha é uma criança vivaz, curiosa e altamente interessada em conhecer e aprender as coisas do mundo. Ela está tentando compreender o sistema da escrita e se apropriar dele e está usando os próprios recursos para isso: observa, compara, pergunta e faz suas próprias tentativas. É assim mesmo que as crianças aprendem e ela poderá aprender a ler mesmo sem ir à escola. Isso é possível quando a criança está interessada e quando não tentamos impor as nossas próprias estratégias e métodos.

Penso que você não deve sonegar informações à sua filha. Ela está querendo aprender. Responda às suas perguntas sem medo de estar pondo o carro na frente dos bois porque ela só vai aprender o que o seu modo de pensar atual pode permitir. É importante, no entanto, que você não formalize essas situações. Quero dizer com isso que você não deve sentar-se com ela e dar exercícios de leitura e escrita. Apenas responda o que ela perguntar. Deixe que as coisas simplesmente aconteçam, não force nada.

No caso do ditado da frase, tenho uma pergunta: como ela pediu o ditado? Ela queria que você soletrasse cada palavra? Creio que soletrar palavras para que ela escreva não seja uma boa atividade. Ela estaria escrevendo letras, não palavras. Temo que ela possa fixar-se nessa estratégia e, assim, inibir tentativas de descobertas sobre a escrita. Ela poderia desenvolver a idéia de que escrever seja copiar letras e ler seja soletrar, encerrando aí o processo de aquisição da escrita.

Você pode, sim, soletrar uma palavra ou outra se ela pedir, mas o melhor que você tem a fazer quando ela perguntar sobre a escrita de alguma palavra, é dizer: "Tente escrever do jeito que você acha que é". Ela deve tentar ler ou escrever utilizando os próprios recursos (observar, ouvir, comparar, refazer, explicar), os conhecimentos que já tem sobre a escrita e as informações que você fornecer quando ela perguntar. Desse modo, ela avançará na medida das próprias possibilidades, sem correr o risco de interrupção do processo.

Voltando à frase, o que você poderia fazer seria simplesmente dizer as palavras uma a uma para que ela tentasse escrevê-las. Certamente, ela perguntaria depois se teria escrito corretamente e você poderia responder: "Nessa palavra, faltam algumas letras, nessa outra, tem uma letra sobrando; tente você mesma descobrir e se você não conseguir agora, não tem importância, aos poucos você vai aprendendo". Ela vai lhe pedir para escrever a palavra correta para que ela copie. Você poderá fazer isso, desde que cuide também para que essa estratégia não seja fixada. Ela poderia se contentar em apenas copiar, o que também inibiria o processo de descobertas sobre a escrita. Copiar sem tentar entender o que se está copiando não é escrever, é desenhar letras.

Veja bem, soletrar e copiar são recursos importantes para a aquisição da escrita, desde que sejam usados pela própria criança como estratégia para compreender o sistema, não como uma atividade mecânica. Compare as duas situações:

Ela pergunta como se escreve tal palavra e você a escreve num papel para que ela copie. Ela copia e passa para uma outra palavra. Ela pergunta como se escreve vinho, por exemplo. Você diz a ela que tente escrever do jeito que acha que é. Ela tenta escrever do seu próprio jeito e pede para você conferir. Você confere e lhe diz que faltam letras ou que tem algumas letras corretas, outras não. Ela tenta novamente e, depois de conferir, você escreve a palavra para que ela compare com o que ela mesma escreveu.

Não é diferente? Na primeira situação, ela apenas copia um desenho feito de letras. Na segunda, ela pode, espontaneamente, comparar a forma, a quantidade e a ordem das letras e, assim, fazer por si mesma algumas observações sobre a escrita.

Vou repetir mais uma vez: não tente forçar nada. Deixe que o interesse e as possibilidades de sua filha determinem a sua aprendizagem. Não fique ansioso para que ela aprenda antes do tempo por mais orgulho que isso possa lhe trazer. Preocupa-me o fato de você não encontrar uma escola que saiba lidar adequadamente com uma criança que esteja muito adiantada em relação às outras. Infelizmente, são poucas as escolas que sabem trabalhar com as diferenças na sala de aula, sejam elas para mais ou para menos.

Talvez fique mais fácil para você entender minhas considerações se você compreender o processo de aquisição da escrita pela criança. Para isso você poderia ler os seguintes textos: Minha filha tem 4 anos e já está sendo alfabetizada... e Minha filha tem 6 anos e está sendo alfabetizada, mas escreve tudo errado.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.