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Tenho um filho
de 1 ano e 7 meses que amamentei exclusivamente até os 6 meses. Depois,
aos poucos, introduzi outra alimentação, sem no entanto parar com
a amamentação. Ele come de tudo, mas continua mamando muito até hoje.
No início, por pura conveniência, eu o colocava na cama comigo para
não levantar várias vezes durante a noite, pois eu acordava
muito cansada e estressada no outro dia. Todos diziam que era errado,
mas eu e meu marido não concordávamos. Quando nos perguntavam, apenas
dizíamos: " Nós, os humanos, somos talvez os únicos mamíferos que
não dormem com seus filhotes na fase de amamentação". A minha preocupação
principal é que agora que está ficando grandinho, como vou fazer para
ele entender que deve dormir na cama dele? Para ele, o certo é dormir
conosco e a culpa é minha. Talvez eu deva deixar de amamentá-lo, não
sei. O que sei é que preciso de um conselho de especialista.
É fácil ler em suas afirmações o quanto
é difícil para você se afastar de seu filho. Você
está, de alguma forma, ciente de que isso é importante,
mas não sabe como fazê-lo e, acredito, teme possíveis
conseqüências: "Será que ele não vai
se sentir abandonado?". Desmamar, tirar de sua cama e colocá-lo
na escola têm um ponto em comum: a separação.
Sim, você
deve parar de amamentar seu filho e tirá-lo de sua cama e
de seu quarto. Vou lhe explicar o porquê. Nos primeiros meses
de vida, as ações do bebê são desempenhadas
pela mãe: ela o alimenta, o protege, cuida da sua higiene,
do entretenimento, satisfaz sua curiosidade. Assim, a mãe
é para ele parte da sua própria pessoa, do seu corpo.
O bebê não consegue se diferenciar da mãe, já
que esta lhe provê tudo aquilo de que ele necessita.
No decorrer do primeiro ano de vida, alguns fatos, próprios
da vida humana, levam o bebê a se diferenciar da mãe
para dar início à constituição da sua
individualidade. As frustrações que a natureza impõe,
como fome e sede, por exemplo, forçam o bebê a tornar-se
ativo, a desenvolver seus próprios métodos de defesa.
Assim como as frustrações, o desmame, que obriga à
separação da mãe, é um fator que propicia
um crescente grau de autonomia e independência. Abre espaço
para o desenvolvimento da locomoção e para a emergência
da fala e da linguagem, por exemplo. Aprender a andar implica em
afastar-se da mãe no espaço e falar implica em comunicar-se
com ela não mais pela ação, mas por meio de
signos.
Não há
um tempo preestabelecido para que as crianças sejam amamentadas,
mas 1 ano e 7 meses é certamente um período mais do
que suficiente para as suas necessidades. Prolongar ainda mais esse
período é reforçar a dependência mútua
entre mãe e filho e correr o risco de retardar o desenvolvimento
da criança em direção à autonomia.
Tão importante
quanto se perceber diferente da mãe é reconhecer-se
como uma pessoa importante para ela, mas não a única.
Aqui entra a figura do pai como aquela que revela à criança
que ela não é a única pessoa na vida mãe.
Por isso é importante também mostrar que há
coisas na vida do pai e da mãe das quais ele não faz
parte. Para desenvolver a própria individualidade, seu filho
precisa perceber a individualidade dos pais e isso inclui preservar
a vida do casal.
Essa é
a maneira como você deve encarar essa separação:
deixar a cama dos pais para dormir na própria cama e no próprio
quarto é uma frustração que ele precisa viver
para se desenvolver. Para aceitar, no futuro, a não ser o
único aluno da professora ou o único no trabalho.
Além do mais, ele já tem idade suficiente para perceber
o que acontece ou o que deixa de acontecer entre pai e mãe
em virtude de sua presença no quarto.
Quanto a parar
de amamentar, você deve fazer aos poucos. Não será
fácil para os dois, mas se você estiver certa de estar
fazendo o que é melhor para ele, conseguirá fazê-lo,
mesmo que lhe custe algum sofrimento no início.
Comece substituindo
o peito pela mamadeira em algumas mamadas ou simplesmente vá
reduzindo o número de mamadas, já que ele mama muito.
Se ele ficar com fome, compensará nas refeições
e, conseqüentemente, passará a mamar menos.
A transferência
de cama e de quarto já não há como ser gradual.
Explique a ele que já está grande o suficiente para
dormir em sua própria cama e que por esse motivo passará
a dormir lá de agora em diante. Ele entenderá de uma
forma ou de outra. Ofereça sua companhia até que ele
adormeça, conte histórias, cante para ele, mas deixe
claro que você deixará o quarto em seguida. Tranqüilize-o
dizendo que vocês continuarão no mesmo quarto e que
lá estarão quando ele acordar. Não creio que
vocês devam recebê-lo na cama no caso de ele aparecer
no meio da noite, pois isso seria apenas uma mudança de horário,
não a imposição de uma regra necessária.
Além do que, inibir esse hábito implicaria em repetir
as tensões e dificuldades do processo pelo qual passarão
agora.
Façam
isso sem medo de estar traindo o amor e a confiança que ele
tem por vocês e sem se lamentar e se culpar pela decisão
que levou à situação atual. Isso não
ajuda em nada, além do que vocês tomaram essa decisão
acreditando que seja o melhor para ele. Agora, é só
mudar essa situação e seguir em frente.
Um abraço,
Elisa
Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
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