|
|
Tenho uma neta
de
4 anos que ainda não consegue pronunciar as letras f e v.
Acredito que essa dificuldade tenha aparecido devido ao uso constante
de chupetas no período de aprendizado das primeiras palavras. Conversamos
com a fonoaudióloga da escola e ela disse que ainda é cedo para tratar.
Achei estranho, pois sempre soube que quanto antes melhor. Qual é
a sua opinião? Essa dificuldade não pode já estar atrapalhando a iniciação
na leitura?
Vou tentar esclarecer suas dúvidas, começando com uma
dúvida minha: sua neta não fala o f e o v.
Ela simplesmente omite esses sons dizendo caé
no lugar de café, por exemplo ou ela substitui por outros
sons? Ou ainda, ela usa o som do f no lugar do v? Diz
cafalo em vez de cavalo?
Essa última
possibilidade é a mais comum e, nesse caso, sua neta pode
estar trocando também outros sons como s/z, ch/j,
p/b, t/d, q/g , mas conversaremos sobre isso depois.
Qualquer que
seja o problema, você tem toda razão: já não
é mais tempo de sua neta estar falando errado. Aos 4 anos,
as crianças têm condições de falar todos
os fonemas (sons) da língua portuguesa. O último fonema
que a criança aprende é o /r/ (de barata ou prato),
porque é o mais difícil de ser pronunciado. Porém,
as crianças já podem falar esse fonema nessa idade.
Os fonemas /f/
e /v/ são muito fáceis de serem produzidos e, por
esse motivo, estão entre os primeiros que a criança
aprende. São, pelo mesmo motivo, fáceis de serem ensinados.
Tente fazer o que vou lhe passar e depois faça o mesmo com
sua neta:
Toque os dentes
superiores no lábio inferior e assopre através do
espaço que há entre eles. Você acabou de produzir
o fonema /f/. Esse fonema nada mais é do que um sopro que
passa entre o dentes e os lábios. Não é fácil?
Peça
para que sua neta assopre de um jeito diferente do que faz para
assoprar velas. Mostre a ela a posição: dentes superiores
apoiados no lábio inferior e diga: "Olhe para a minha
boca e faça como estou fazendo. Isso! Agora assopre".
O som produzido deverá ser ffffffff... "Muito bem. Agora
é só dizer: fffffffaca, cafffffé, ffffffffumaça".
Use o recurso
de prolongar o f enquanto for necessário, isto é,
enquanto ela precisar se apoiar nele. De vez em quando, diga para
tentar fazer o f mais curtinho, assim: fffffaca, fffaca,
ffaca e, finalmente, faca.
Agora toque novamente os dentes superiores no lábio inferior
e assopre, emitindo ao mesmo tempo um som assim: hummm. Prolongue
o sopro e o som para poder perceber o fonema. Você produziu
o fonema /v/. Sentiu a vibração nos lábios?
Com a sua neta,
não há necessidade de usar esse procedimento todo.
Apenas produza o som vvvvvv... e peça para ela repetir. Diga
que o v é muito parecido com o f. Os dois são
um sopro feito com os dentes e os lábios, só que o
v tem um motorzinho. Pergunte se ela não sente cócegas
nos lábios quando faz vvvvv...
Essa é
a maneira de introduzir os sons, de ensinar a produzi-los. Ela deverá
conseguir logo nas primeiras tentativas. Depois, é só
brincar com ela de repetir palavras, nomear figuras, evocar palavras
que tenham f ou v. Será preciso também
ajudá-la a lembrar de falar corretamente no cotidiano para
que ela incorpore o novo som à fala corrente. Isso leva mais
tempo e não é necessário corrigi-la sempre,
em todas as palavras, porque isso seria um tormento para todos.
Basta dizer de vez em quando: "Você esqueceu de falar
aquele som". Ou então: "O que você disse?"
ou "Aca ou faca?" (considerando que ela omita o
som).
Sobre a alfabetização,
você pode ficar tranqüila: trocar ou omitir sons na fala
não atrapalha, absolutamente, o processo de aprendizagem
da escrita. No entanto, se a sua neta troca o som do v pelo
som do f, poderá, sim, reproduzir essa troca na escrita
e o mesmo ocorrerá com os outros pares de sons que mencionei
no início, mas apenas nesse caso. Não tenho visto,
em minha vida profissional, erros de fala transferidos para a escrita,
a não ser nesse caso. Isso se deve ao fato de que esses pares
de sons são muito semelhantes e por isso as crianças
os confundem tanto na fala quanto na escrita. Lembra-se de que o
f e o v são produzidos da mesma maneira, apoiando
os dentes no lábio e assoprando? A única diferença
é que o v tem motor (vibração das cordas
vocais) e o f não tem. É essa diferença
que faz as crianças se confundirem. O mesmo acontece com
os outros pares que mencionei e por isso dificilmente o problema
acontece com um único par.
Mesmo que seja
esse o problema de sua neta e que ela o supere antes de aprender
a ler e escrever, ainda assim poderá repetir a troca na escrita.
Mas não fique desanimada nem preocupada. Quando chegar a
hora, com um pouco de ajuda, ela superará o problema na escrita
também.
Para finalizar,
caso ela troque o v pelo f, o problema não
foi causado pelo uso da chupeta porque nesse caso a dificuldade
está em perceber auditivamente a diferença entre os
sons. Se o problema for a omissão ou um outro tipo de substituição,
poderíamos responsabilizar a chupeta, mas apenas em casos
extremos: se ela usasse a chupeta o dia todo e falasse com a chupeta
na boca, por exemplo. Entretanto, qualquer que seja a causa, a forma
de ajudá-la será a mesma e não será
difícil para ela superar a dificuldade.
Um abraço,
Elisa
Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
|
 |
|