Meu bebê de 1 ano e 6 meses está com mania de se jogar no chão. Depois da creche, coloco-o para andar, mas ele não quer e se joga no chão. Vou saindo e ele vem engatinhando, porém é só olhar para trás que ele fica esperando que eu o pegue no colo. O que devo fazer?

Seu bebê está com 1 ano e meio, freqüenta uma creche e recusa-se a andar até que você o pegue no colo. São três informações diferentes e aparentemente não estão relacionadas umas com as outras, a não ser pelo fato de que esse comportamento ocorre quando ele sai da creche.

É apenas nessa situação que ele tem esse comportamento? Quando outra pessoa vai buscá-lo, ocorre a mesma coisa? Quando ele começou a andar? Quando começou a freqüentar a creche?

Fiz essas perguntas para começarmos a estabelecer uma relação entre esses três eventos: a idade dele, a creche e a recusa de caminhar.

Vamos voltar um pouco no tempo. Nos primeiros meses de vida, as ações do bebê eram desempenhadas por você: você o alimentava, o protegia, cuidava de sua higiene, do entretenimento, satisfazia sua curiosidade. Assim, você era, para ele, parte da sua própria pessoa, do seu próprio corpo. Para o bebê, você e ele eram uma pessoa só, pois era você quem fazia tudo o que ele necessitava. Isso ocorre com todos os bebês, faz parte de seu desenvolvimento.

Pouco a pouco, o bebê vai percebendo que é diferente da mãe, mas continua dependente dela ainda. No entanto, a mãe não é capaz de satisfazer todas as necessidades do bebê como ele gostaria, porque não está presente ou porque não consegue interpretar corretamente o seu choro ou simplesmente porque não pode.

Assim, ele tem que agüentar um pouco mais a fome até que ela termine o banho ou até que a mamadeira esfrie. Tem que agüentar a dor de barriga até que ela passe ou a dor de ouvido até que descubram a razão do seu choro. Tem que agüentar a ausência da mãe até que ela retorne do trabalho. Que bom que isso acontece, porque são essas frustrações que vão preparando o bebê para adquirir a individualidade e conquistar autonomia e independência.

Isso é necessário para que ele aprenda a se separar da mãe e se desenvolver. Aprender a andar, por exemplo, implica em afastar-se da mãe no espaço e falar implica em comunicar-se com ela não mais por meio da ação, mas por signos. A partir desse momento, ele não terá mais a mãe satisfazendo as suas necessidades ao menor resmungo, mas, em compensação, ganhará a possibilidade de resolver sozinho alguns problemas: locomover-se para pegar um brinquedo distante ou pedir água ao sentir sede. Essas são conquistas importantes na vida do bebê, mas não são tão fáceis para ele. É preciso renunciar ao aconchego, à segurança do colo materno e ao atendimento quase imediato de suas necessidades.

Feitas essas considerações, vamos pensar em você e em seu filho. Não deve fazer muito tempo que ele aprendeu a andar, portanto ainda oscila entre a excitação de se aventurar pelo mundo com as próprias pernas e permanecer no cercado que o seu colo representa para ele. Se ele foi para a creche esse ano, os dois eventos ocorreram mais ou menos na mesma época e ele teve que enfrentar uma dupla situação de angústia: deixar o seu colo para aprender a andar e adaptar-se a um novo espaço (a creche) e tudo o que isso representa: permanecer um longo período afastado da mãe e da família, distante do seu quarto, dos objetos, dos ruídos e cheiros que lhe são familiares. Pior, sem saber quando terá você e tudo o que você representa para ele
de volta.

Para você, deixar seu filho na creche é também uma situação de angústia, pois significa renunciar à função mais preciosa: o papel
de mãe.

Então não seria melhor para ambos se, ao recebê-lo na creche, você o pegasse no colo e iniciasse a caminhada? Afinal ele tem apenas 1 ano e 6 meses e passou um longo período à sua espera. O que ele está querendo não é evitar a caminhada, mas exatamente sentir o calor e a segurança do seu colo. Se a caminhada for longa, você pode dizer a ele, depois de algum tempo, que você está cansada e que ele terá que andar um pouco para que você descanse. Alternando colo e caminhada, você dará a ele o que ele precisa e, ao mesmo tempo, fornecerá a oportunidade de exercitar sua independência.

Penso que assim vocês poderão desfrutar a companhia um do outro e evitar o desgaste da situação atual, sem que ele deixe de aprender o que deve.

Seja mais generosa com ele e consigo mesma, sem medo de estar cedendo a um capricho dele porque não me parece ser esse o caso.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.