Meu filho de 4 anos ficou sem escola este ano. Gostaria de ensinar-lhe os números e as letras do alfabeto. Como posso despertar seu interesse pelo estudo se está sozinho em casa, sem a companhia dos amiguinhos? Vocês poderiam me enviar modelos de lições para a faixa de idade dele?


Vejo que você está preocupada com o fato de seu filho estar com 4 anos e não estar na escola. O que a faz preocupar-se com isso? É o fato de a maioria das crianças atualmente freqüentar a escola desde muito cedo? Você tem medo de que isso possa prejudicar seu desempenho escolar no futuro?

Veja bem, as crianças estão indo para a escola cada vez mais cedo por uma questão social: as mulheres hoje em dia trabalham e preferem (ou só têm recursos para) deixar seus filhos na escola do que aos cuidados de uma babá. Foi essa necessidade que levou à proliferação das escolas de educação infantil nos últimos vinte anos. Portanto, a necessidade é nossa, não das crianças. O tempo passou, nos esquecemos dessa razão primordial e passamos a acreditar que as crianças é que precisam da escola. Pior, passamos a acreditar ser necessário que as crianças aprendam certas coisas cada vez mais cedo e que para isso basta ensinar. Será que isso é verdade? Será que aqueles que vão para a escola um pouco depois do que os outros ficam em desvantagem?

Bem, o que estou querendo dizer com tudo isso é que a competição que a nossa sociedade capitalista promove nos pressiona e acabamos pressionando nossos filhos. Penso que, mesmo que de forma inconsciente, é isso que a mobiliza a ensinar formalmente letras e números para o seu filho de 4 anos.

Acontece que estamos nos esquecendo da criança que habita nossos filhos: crianças são seres em desenvolvimento e, por essa razão, têm um modo e um ritmo próprios de aprender. Isso quer dizer que cada aprendizagem tem seu tempo, seu momento certo, de acordo com as possibilidades de cada criança. Não podemos impor a elas o nosso desejo de que aprendam coisas antes de que possam fazê-lo, sob pena de bloquearmos o seu próprio desejo de aprender.

Por que não tentamos ensinar as crianças a andar aos seis meses de idade? Por que, nesse caso, esperamos tranqüilamente que ela adquira certas condições para que a incentivemos a dar os primeiros passos? Porque sabemos que, aos 6 meses, elas não podem andar. Então, por que não fazemos o mesmo com a aprendizagem escolar? Por que não damos a elas o tempo de que necessitam para que aprendam as coisas da escola sem tropeços?

Não quero dizer com isso que as crianças não devam ir para a escola muito cedo, nem que não possamos ensinar a elas coisas da escola. Podemos ensinar sim. O que não podemos é exigir que elas aprendam do jeito que esperamos e no tempo que desejamos. Podemos ensinar desde que respeitemos a sua forma de pensar e o seu jeito de aprender em cada momento.

Desculpe-me se pareço um tanto agressiva. Não é essa a minha intenção, nem estou me referindo a você especificamente, mas à mentalidade que se instalou entre nós. É sobre essa mentalidade que estou tentando refletir juntamente com você, porque é ela que a leva a preocupar não só você, mas muitos outros pais com a aprendizagem precoce das crianças. Precisamos refletir sobre o que estamos fazendo com nossas crianças – e eu me refiro a todas as crianças, às crianças da nossa época.

As crianças aprendem e se desenvolvem relacionando-se com as pessoas e com as coisas do mundo, procurando entender o que acontece à sua volta, explorando o mundo e buscando explicações para o que observam. Levantando hipóteses a respeito dos fenômenos da natureza e confrontando essas hipóteses com a realidade. As crianças buscam incessantemente compreender o mundo, mas a sua compreensão é determinada pelas suas possibilidades de raciocínio em cada etapa de seu desenvolvimento e aprendizagem. As crianças participam ativamente da própria aprendizagem, elas não são meros observadores ou receptores de informações. Por isso não é só na escola que elas aprendem; elas estão o tempo todo aprendendo, mesmo que não haja ninguém a seu lado ensinando.

Você mesma me pergunta de que modo pode fazer seu filho interessar-se por letras e números. Se ele não está interessado, não será com exercícios formais que você vai despertar seu interesse. Ele não está interessado ainda porque há outras coisas que interessam mais. E se interessam mais é porque, nesse momento, ele pode atuar e interagir melhor com elas, compreendendo-as.

Você pode ajudar seu filho de outras maneiras mais gostosas e mais favoráveis à aprendizagem no momento atual do seu desenvolvimento.

Leia histórias para ele. Histórias curtas ou longas, com figuras ou sem figuras, não importa, desde que sejam histórias interessantes. As crianças adoram contos de fadas e histórias de bichos. O importante é que sejam lidas para que ele vá entrando em contato com a linguagem escrita e suas características, que são bem diferentes das da linguagem oral. Não se intimide diante de palavras mais difíceis. Leia a história exatamente como está no livro; ele pedirá explicações quando sentir necessidade e você também poderá oferecê-las se achar importante. Você vai se surpreender com a sua capacidade de entender. Não se preocupe também se ele compreender de um jeito diferente do que você achar correto: lembre-se de que ele ainda não tem um pensamento igual ao do adulto.

Brinque com as palavras e as sílabas. Esconda objetos ou figuras para que ele descubra o que é, dizendo: é um bicho e o seu nome começa com ma. Brinque com rimas. Compare nomes de pessoas da família ou outras palavras quaisquer que comecem com a mesma sílaba. Essas brincadeiras desenvolvem a atenção da criança para os sons da fala, o que facilita a aquisição da escrita, já que as letras representam os sons da fala.

Escreva o nome dele nas suas roupas e brinquedos para que ele comece a observar as letras que o compõem. Sugira a ele que assine os desenhos que fizer, que escreva seu nome em alguns de seus pertences.

Quanto aos números, aproveite as situações do cotidiano para separar, distribuir e contar objetos. Conte os degraus da escada, as garrafas de refrigerante que ele ajuda a guardar, os copos e pratos que põe na mesa. Pergunte-lhe se tem mais Guaraná ou Coca.

Escreva números de telefone para que ele mesmo disque, ensine-lhe a procurar os canais que quer ver na TV, as faixas que quer ouvir no CD. Ensine-lhe a consultar o calendário para verificar quantos dias faltam para a ocorrência de um evento esperado.

Jogue com ele jogos de Saída e Chegada, mas não se preocupe se ele não souber contar as casas uma a uma, nem se precisar contar os pontinhos pretos do dado em cada jogada. Vá ajudando, dê o tempo de que ele precisa para aprender e, aos poucos, ele aprenderá. Brinque também com jogos em que ele tenha que contar peças e comparar quantidades. Não use grandes quantidades porque as crianças aprendem os números e compreendem quantidade a partir de poucas unidades – até dez, no início.

Esteja atenta às situações do dia-a-dia e você encontrará várias oportunidades de chamar sua atenção para as letras e os números, sem correr o risco de exigir que ele aprenda o que não pode aprender no momento, nem de tumultuar a relação de vocês.

Espero ter contribuído para que você deixe de se preocupar com o fato de seu filho não estar na escola esse ano. Desfrute a companhia dele sempre que puder, brinque, jogue e leia histórias para ele e você verá quanta coisa ele poderá aprender. Aos 5 anos, ele voltará para a escola e então poderá aproveitar as atividades mais formalizadas de leitura e escrita que as escolas oferecem para crianças dessa idade.

Não tenha receio de estar prejudicando seu filho com a falta da escola esse ano. Se você quiser complementar essas considerações, sugiro que leia os seguintes textos. Penso que poderão ajudá-la a compreender melhor algumas coisas que acabei de falar: [produção: linkar para resp04.htm] Minha filha tem 4 anos e já está sendo alfabetizada...; Minha filha tem 6 anos e está sendo alfabetizada, mas escreve tudo errado... e Eu trabalho o dia inteiro...

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.