Meu filho de 3 anos e 4 meses está numa escolinha e sua professora está passando, creio eu, um treinamento para escrita de vogais e números, além de lição para casa. Acompanhando-o na execução das tarefas, notei que ele começa a criar algumas desculpas para se safar da tarefa, do tipo "Pai, já estou com dor de cabeça", depois de apenas alguns minutos de lição. Sei que é uma desculpa, pois ele vai brincar logo em seguida.
Fiquei preocupado e gostaria de saber como direcioná-lo de maneira adequada para que se interesse pelo processo de aprendizagem. Venho tentando despertar nele o interesse por livros, já comprei alguns exemplares e houve muito interesse por parte dele.


Seu relato sobre as atividades que seu filho de apenas 3 anos e 4 meses faz na escola deixaram-me perplexa e curiosa. Perplexa devido à precocidade dos ensinamentos a que ele está sendo submetido e curiosa por saber como é o desempenho dele e de seus coleguinhas nas tarefas escolares. Eles conseguem desenhar corretamente as letras e os números?

Faço essa pergunta porque aos 3 anos, normalmente, a atividade gráfica é caracterizada pelo simples prazer de rabiscar e deixar marcas no papel, de exercitar motoramente a ação. Nessa idade as crianças reconhecem o que é desenho e o que é escrita e também os representam de formas diferentes. Sua capacidade mental de representar os objetos por meio do desenho, no entanto, está se desenvolvendo e seus desenhos não passam de rabiscos aos quais a criança atribui um significado. Pelo mesmo motivo, ela representa a escrita por meio de linhas serrilhadas ou onduladas sem nenhuma relação, ainda com os caracteres convencionais. Exigir que elas desenhem letras e números vai além de suas possibilidades.

Não me admira que seu filho sinta dores de cabeça diante de tais tarefas. Na verdade, está tentando dizer que o que estão pedindo a ele é muito difícil, que ele não pode fazer isso agora.

Seria interessante que você pesquisasse com os pais dos coleguinhas dele as atitudes dos filhos diante das lições de casa. Penso que você encontraria muitos casos semelhantes ao de seu filho, se forem todos da mesma faixa etária.

Minha opinião é que crianças dessa idade não deveriam ter lições de casa, muito menos com esse conteúdo. Não só porque ainda não são capazes de fazer tais coisas como porque se furtam à atividade mais preciosa da vida da criança: brincar. O brinquedo é a forma mais eficiente e saudável de aprendizagem e desenvolvimento infantil. Você já parou para pensar que o exercício de rabiscar pelo prazer está sendo substituído pela obrigação de copiar formas que para ele não têm sentido algum? Os rabiscos que a criança faz nessa época fazem parte do processo de construção de sua capacidade representativa: é a origem do desenho e da escrita. Sou da opinião de que essa exigência precoce põe em risco, desnecessariamente, a aquisição da escrita e, como conseqüência, a vida escolar da criança. E seu filho já está lhe dizendo isso! A dor de cabeça não é desculpa.

Se você quer despertar o interesse de seu filho pela escrita, leia para ele. Leia os contos de fadas, tal como estão nos livros, com aquela linguagem tão atraente e fascinante para as crianças. Ouvindo textos escritos as crianças se apropriam da estrutura e do vocabulário que lhes são próprios, aprendem coisas sobre o mundo e, principalmente, se deleitam e se encantam. Porém, não faça isso como atividade educativa e sim, como atividade de lazer para você e para seu filho. A aprendizagem vem como conseqüência. Simplesmente curta e deixe curtir. Não se esqueça de que seu filho é uma criança e muito pequena ainda!

Há outros textos no Klickeducação sobre a aquisição da escrita e sobre o desenvolvimento infantil que o ajudarão a compreender melhor o que estou tentando lhe dizer:

Meu filho de 4 anos ficou sem escola este ano. Gostaria de ensinar-lhe os números e as letras do alfabeto...
Minha filha vai fazer 4 anos, não está na escola, mas já escreve muitas palavras...
Minha filha vai fazer 6 anos em novembro. Ela pode ser matriculada na 1ª série do ensino fundamental no próximo ano?
Minha filha tem 6 anos e está sendo alfabetizada. Estou preocupada porque ela escreve tudo errado...
Eu trabalho o dia inteiro. Meu filho de 2 anos e meio fica com a avó e à tarde deveria ir à escola, mas acaba dormindo. Devo tirá-lo da escola?
Quais são os critérios que devo observar para escolher uma escola de educação infantil?
Minha filha tem 4 anos e já está sendo alfabetizada. Será que não é muito cedo?

Sei que não é fácil compreender minha postura num mundo competitivo como este em que vivemos, no qual parece ser necessário antecipar cada vez mais a aprendizagem das crianças, como se isso fosse possível e como se não acarretasse nenhum ônus para elas.

Veja que há cada vez mais profissionais especializados em desenvolvimento infantil (fonoaudiólogo, psicólogo, psicopedagogo, neuropediatra) e que seus consultórios estão cada dia mais cheios. Por que será que isso está acontecendo? Acho que temos que refletir sobre isso. Será que não estamos produzindo crianças com dificuldades?

Se eu fosse você reavaliaria essa escola. Veja que lugar o brinquedo ocupa na sua proposta pedagógica. Qual é o tempo e o espaço dedicado a isso. O que é cobrado das crianças, de fato, em relação à escrita nessa idade? Exige-se que aprendam a recitar as letras e a escrevê-las corretamente? Como são tratados os "erros" das crianças? Seu filho gosta da escola? Vai para a escola com satisfação?

Aprenda a observar o seu filho e a se deliciar com as maneiras que ele encontra para explicar o mundo. Curta os diferentes momentos do seu desenvolvimento e aprendizado e você verá que não é necessário apressar as coisas. Tudo tem o seu tempo e quando tentamos antecipar alguma coisa, só podemos fazê-lo em detrimento de outra, porque o tempo não é elástico. Não podemos por coisas no tempo sem tirar outras. Se você ficar preocupado com as coisas que você supõe que o seu filho deva aprender agora, não poderá ver as tantas coisas que ele aprende diariamente e que nesse momento são mais importantes do que a aprendizagem formal.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.