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Tenho 17 anos,
estou no 2º ano do segundo grau e já repeti de ano uma
vez. Vou mal na escola, por mais que preste atenção
na aula. Nunca incomodo meus professores, mas existe uma coisa ruim:
eu ODEIO estudar. Até que eu tento, mas não consigo.
Quanto mais eu estudo parece que menos coisa entra na minha cabeça
e, além de tudo, eu esqueço o que estudo. Parece também
que eu tenho mais dificuldade de estudo e concentração
do que meus colegas. Eles me dizem que estudam na véspera e
se saem bem, e eu me mato tentando estudar e vou mal. Existem diferenças
de facilidade e compreensão de pessoa para pessoa ou burrice
é genético, uma vez que meus pais não eram de
estudar muito? Por favor me responda e me dê a fórmula
para estudar e ter um bom desempenho escolar.
Vamos conversar sobre cada uma das coisas que você mencionou.
Eu não tenho nenhuma resposta pronta, nem uma fórmula
que resolva o seu problema porque, infelizmente, isso não existe.
Cada pessoa é de um jeito e para cada uma há um jeito
de resolver os problemas. A minha intenção é
ajudá-lo a pensar sobre as coisas que lhe acontecem para que
você mesmo encontre as respostas que procura.
Você me
diz: "Eu odeio estudar".
Há quanto tempo você repete essa frase?
Há quanto tempo você ouve dizerem isso a seu
respeito?
Eu não
tenho essa certeza e vou lhe dizer por que razão. Você
pode não gostar de estudar, como aliás o mundo inteiro!
Mas ODIAR, com letra maiúscula, como você diz, não
sei não!
Se você
odiasse tanto assim, teria repetido apenas uma vez? Seria um aluno
disciplinado, respeitador, que não incomoda os professores?
Seria um aluno que presta atenção à aula? Estudaria
para as provas mesmo sabendo de antemão que o resultado não
seria equivalente ao esforço? Teria gasto uma parte de seu
tempo escrevendo para me pedir ajuda? Eu acho que o que você
odeia é uma outra coisa e precisamos descobrir o que é.
Pelo jeito você
nunca foi um bom aluno, mas é o que você mais desejaria,
não é? Afinal, quem estuda tanto não faz isso
à toa. Ninguém faz coisa alguma para ser mal-sucedido.
Ninguém se esforça sem esperar um bom resultado, não
é mesmo? Se você estuda é porque quer tirar
uma boa nota (A gente só estuda para aprender depois que
sai da escola. Pelo menos é o que acontece com a maioria
dos estudantes).
Quem não
fica louco da vida, com ódio mesmo, quando se dedica a alguma
coisa, se esforça, e não consegue nada ou não
obtém o resultado que esperava? E passa anos tentando...
e não consegue. Até repete o ano. Que dureza! Eu também
sentiria ódio. Não do estudo, mas do esforço
não recompensado, do fracasso ou de mim mesma. Ódio
de não conseguir ser o que eu gostaria. Sentiria ódio
daqueles que se dão bem, e sem esforço algum. Sentiria
ódio de todos aqueles que me parecessem melhores do que eu,
mesmo que não o fossem. Eu sentiria ódio dos meus
irmãos se eles fossem melhores do que eu. Dos meus pais se
me comparassem com os outros ou se não percebessem o meu
esforço, a minha dificuldade e a minha vontade de ser como
eles gostariam que eu fosse. Eu sentiria ódio dos meus professores
se eles me comparassem com os meus colegas, se eles não percebessem
meu esforço. Mas ficaria com ódio, também,
se eles me dessem nota só pelo esforço.
Mas o que será
que acontece com você, que estuda e não vai bem nas
provas? De uma coisa você pode ter certeza: não é
falta de capacidade, muito menos burrice hereditária. Isso
não existe. O fato de seus pais não serem muito de
estudar quer dizer apenas isso: eles não eram muito de estudar.
Talvez as circunstâncias não lhes tenham sido favoráveis,
mas isso não quer dizer que você deva ser igual a eles.
Você pode suplantá-los e estou certa de que eles não
se sentiriam desvalorizados por isso. Todos nós nascemos
com as mesmas possibilidades de aprender (a não ser no caso
de problemas sérios como deficiência auditiva ou síndrome
de Down). O que faz a diferença são as oportunidades
que cada um tem e as circunstâncias.
Muitas coisas
podem trazer dificuldades quando a criança entra na escola.
É muito natural porque, quando ela começa a aprender
a ler e a escrever, as expectativas dos pais e da própria
criança são muito grandes. Nessa fase, qualquer problema,
por menor que seja, provoca medo e angústia na criança.
Medo de não aprender, medo de ser reprovado, medo de fracassar,
enfim. Se os pais ou os professores não perceberem ou não
souberem cuidar disso, algo que ainda não é problema
se transforma num problema de verdade. E quando as pessoas começam
a repetir "ela tem dificuldades", "ela não
aprende", "ela não se concentra", a criança
começa a se achar incapaz e aí é que não
consegue aprender mesmo. Isso é o que acontece com a maioria
das crianças que não têm um bom desempenho na
escola. Elas não têm dificuldade alguma, mas todos,
até elas próprias, acreditam que sim. A cada nota
baixa é como se ouvissem "você não tem
mesmo jeito!". É possível alguém se sentir
capaz com uma profecia dessas? Acho que você sabe bem do que
estou falando.
A dificuldade
que você tem para se concentrar não é causa
de suas dificuldades na escola, é conseqüência.
Você não se concentra porque odeia estudar, porque
estuda sabendo que não vai tirar uma boa nota, estuda com
raiva porque não consegue ser bom aluno e, principalmente,
porque estuda sabendo que não vai se concentrar, porque você
já incorporou esse rótulo. Você entende o que
eu quero dizer? Você já disse tanto, já ouviu
tanto que não consegue se concentrar que isso acaba determinando
seu comportamento. Você não consegue escapar dessa
profecia. É como se, ao se concentrar, você deixasse
de ser você mesmo. Se você se concentrar, estudar e
tirar uma boa nota, não será mais você mesmo.
Isso faz sentido para você?
Você tem
17 anos e está no 2º ano do ensino médio. Certamente
você aprendeu muita coisa nesses anos de escola, senão
não teria chegado até onde chegou. Você pode
não ser tão bom aluno quanto gostaria, mas com certeza
não é ruim como você imagina. Eu tenho certeza
de que você tem todas as condições para ser
um excelente aluno, que é o que você gostaria de ser.
Aos 17 anos, penso que você mesmo pode se ajudar. Comece por
pensar em todas as coisas que acabamos de conversar. Tente se desvencilhar
dessas idéias preconcebidas a respeito de si próprio.
Não permita que as pessoas continuem repetindo tais coisas
a seu respeito, nem por brincadeira. Faça suas provas sem
se preparar para se dar mal (o que eu quero dizer é sem ficar
pensando que vai se dar mal). Nunca mais repita a palavra "burrice"
nem de brincadeira. Respeite a si próprio. Você não
é burro. Tire da cabeça que você tem algum problema
que dificulta sua aprendizagem. Principalmente, tenha coragem de
deixar de ser a pessoa que todos já conhecem, para ser aquele
que você quer ser.
Um abraço,
Elisa
Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
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