Tenho 16 anos e estou no fim do 2° ano do Ensino Médio. Por esse motivo tenho me preocupado muito, pois tenho uma grande dificuldade em me concentrar nas horas de estudo. Também sou bem ansiosa, o que me atrapalha ainda mais. Apesar disso tenho um bom desempenho na escola. Sinto que tenho grande facilidade, principalmente nas áreas de exatas e biológicas, por isso pretendo prestar vestibular para Medicina no ano que vem. Essa decisão me deixou ainda mais impaciente e ansiosa, porque sei que terei que estudar muito no ano que vem, porém tenho grande dificuldade. Gostaria de saber sua opinião e também se possível alguma sugestão.

Você é uma boa aluna, apesar de ser ansiosa e de não conseguir se concentrar completamente nos estudos. Fiquei aqui imaginando de que forma essa falta de concentração se manifesta, em que momentos e em quais disciplinas. Você me diz que tem grande facilidade, principalmente em exatas e biológicas. A palavra principalmente me faz supor que você também tenha facilidade em humanas, embora não tanto quanto nas outras duas.

Você tem facilidade e é boa aluna, apesar da dificuldade de concentração e da ansiedade. Você já parou para pensar o que é que você faz para combater ou compensar esses dois problemas? Sim, porque ambas as coisas comprometem muito o desempenho escolar (aliás, o desempenho em qualquer coisa) e esse não é o seu caso. Talvez você não se dê conta, mas de alguma forma você mantém a ansiedade e a falta de concentração sob controle. De outra forma você não teria chegado ao 2º ano do Ensino Médio com 16 anos. Nem estaria pensando em fazer um curso de Medicina, o mais concorrido do país. É importante que você pense sobre isso, porque se você descobrir de que modo combate a ansiedade e a falta de concentração, talvez consiga eliminá-las de uma vez.

Se você tem facilidade para os estudos e gosta de estudar (você não disse isso mas dá para perceber), o que a deixa ansiosa? Eu vou arriscar um palpite: seus pais são muito exigentes?

Faz parte do ser humano querer corresponder à expectativa do outro, principalmente dos pais. Às vezes os pais têm, de fato, expectativas muito altas (principalmente num mundo como o atual em que as pessoas são avaliadas pelo sucesso no que fazem) e cobram explicitamente dos filhos a satisfação dessas expectativas. Outras vezes os filhos é que supõem as exigências dos pais, ou seja, elas não existem na realidade, mas funcionam como se existissem. Você entende o que eu quero dizer?

Vou arriscar outro palpite: você é muito exigente consigo mesma? Não sei, mas algo me diz que talvez o problema esteja aí. As pressões externas são ruins, mas as internas (aquelas que fazemos para nós mesmos) são muito piores porque delas não podemos escapar.

Estou pensando nessas duas hipóteses, não só por ser uma coisa comum, mas pelo fato de você ser boa aluna. Os bons alunos têm uma desvantagem em relação aos outros: eles não podem falhar. Ninguém diz isso a eles, mas não é preciso que se diga. Isso acontece com a maioria das pessoas bem-sucedidas: cobram de si mesmas o sucesso sempre. Isso faz sentido para você? O compromisso com o sucesso provoca uma enorme ansiedade, e a ansiedade traz algumas dificuldades – a falta de concentração é uma delas.

Talvez eu não esteja certa e as coisas que falei não a ajudem em nada. Mas eu vou insistir: pense nisso com carinho, porque, se eu estiver correta, é bom que você vá tentando ser mais generosa consigo mesma. Quando exigimos muito de nós, não conseguimos nem curtir aquilo que fazemos, muito menos o resultado obtido, porque este passa a ser uma obrigação. Imagine, então, quando não conseguimos alcançar o resultado esperado. Sentimo-nos no chão, como se não tivéssemos o direito de falhar ou, simplesmente, de não conseguir tudo.

Veja que você está se propondo a coisa mais difícil para um vestibulando: entrar na faculdade de Medicina. Eu não tenho dúvidas de que você tem condições para conseguir, mas veja lá o que vai fazer com você mesma!

Se você quer um conselho, faça um programa de estudos para o próximo ano. Pegue as apostilas de um cursinho qualquer e separe as disciplinas e os assuntos que precisa estudar mais. Veja de quantas horas você pode dispor, diariamente, para estudar para o vestibular e faça um plano para estudar o material que você separou. Talvez até dê para estudar tudo, não apenas as que você tiver separado. Isso é possível, mas você precisa ter disciplina e estar disposta a abrir mão de uma porção de coisas. Você terá de estudar nos fins de semana, nos feriados e nas férias, também. Se você quer mesmo ser médica e estudar numa boa faculdade, eu acho que o sacrifício vale a pena. Mas veja bem: estabeleça um plano que você possa cumprir e que lhe dê alguma folga também. Não exagere!

Se não for nada disso que eu falei, faça uma nova tentativa. Escreva falando um pouco mais sobre a ansiedade e a falta de concentração. Desde quando você sente essas coisas, em que situações aparecem, se comprometem o seu desempenho, se é apenas em relação aos estudos que acontece. Fale o que você considerar importante. Talvez eu possa ajudá-la em outra ocasião.

Um abraço,

Elisa Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.