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Meu filho tem
6 anos, irá completar 7 em abril do ano que vem. Ele freqüenta
a escola há dois anos, jardim e pré. Esta semana fui
chamada na escola e a coordenadora pedagógica disse que ele
terá que continuar na pré-escola, porque tem mentalidade
de uma criança de 3 anos, não fala corretamente e é
pequeno para a idade. Mas meu marido quer matriculá-lo na 1ª
série, para ver coisas diferentes do que ele já tem
visto. A coordenadora disse que na escola ele estava na sala do jardim
porque não acompanhava o pré. Isso é correto?
Quem tem razão: a escola ou meu marido? Qual a melhor escola
para meu filho?
Há duas coisas sobre as quais precisamos conversar: seu filho
e a escola que ele freqüenta.
Veja bem: falar
errado e ser pequeno não compromete em nada o aprendizado
de uma criança. Ao contrário do que muita gente pensa,
as crianças aprendem a ler e a escrever mesmo falando errado.
No entanto, uma criança de 6 anos já deveria falar
corretamente e é com isso que devemos nos preocupar. Vamos,
em primeiro lugar, entender uma coisa: ele apenas troca letras ou
sua linguagem também está comprometida? O que quero
dizer é que a pronúncia e a linguagem são coisas
diferentes. Seja qual for o problema, é importante levá-lo
a um fonoaudiólogo para investigar e tratar as causas da
dificuldade. Mesmo aos 6 anos, as dificuldades de pronúncia,
se não forem severas e não estiverem associadas a
outros problemas, não devem causar preocupação.
A linguagem se refere à comunicação em si:
o seu repertório lingüístico (vocabulário
e tipos de frase que usa) está adequado para a idade? Ele
se comunica bem, apesar dos erros de pronúncia? Compreende
histórias contadas e lidas? Suas narrativas são claras?
Entende explicações? Sabe dar explicações?
Gosta de conversar?
Penso que talvez
haja um exagero da escola em dizer que ele tem mentalidade de 3
anos, mas não podemos simplesmente desconsiderar essa informação.
O que a escola quis dizer com isso? Você concorda?
Veja: uma coisa
é ter um comportamento infantilizado e eu me refiro
àqueles comportamentos típicos de criança mimada.
Outra coisa é apresentar um atraso na linguagem, na fala,
na aprendizagem e no crescimento. Esse conjunto de sinais aponta
para um atraso no desenvolvimento. Se você não estiver
tranqüila sobre o desenvolvimento de seu filho, ou seja, se
você percebe que, na idade em que seu filho está, há
muitas coisas que ele deveria fazer e não faz, não
deixe de procurar um especialista. É preciso saber o que
está acontecendo para ajudá-lo a se desenvolver. Muitas
coisas podem estar em jogo e, às vezes, o simples fato de
tomar conhecimento delas pode ajudar a desatar os nós que
estão emperrando seu desenvolvimento.
Agora vou lhe
dizer outra coisa tão importante quanto a que acabei de falar.
Cuide para que seu filho não seja rotulado na escola e na
família. Mesmo que você concorde que ele não
esteja se desenvolvendo como o esperado, não fique repetindo
que ele tem um problema, que está atrasado ou que não
tem condições de ir para a 1ª série. Cuide
de seu filho, faça o que for necessário para saber
o que se passa e resgatar o seu desenvolvimento, mas tome cuidado
para que isso não o transforme numa criança-problema.
Estar com um problema é muito diferente de ser um problema.
Você entende o que eu quero dizer?
Não sei
se estou conseguindo ser clara. Estou dizendo tudo isso porque senti
em sua carta que em alguma medida você concorda com a escola.
Caso contrário você simplesmente trocaria de escola
e o matricularia na 1ª série, já que ele tem
idade para isso. Senti que você está preocupada e quer
ajuda, e eu seria irresponsável se passasse por cima das
informações que você mesma está me oferecendo.
Acho que você
precisa repensar sobre essa escola. Não sei se entendi bem,
mas parece que o transferiram do pré para o jardim sem um
comunicado aos pais. Foi isso mesmo o que aconteceu? A escola jamais
poderia fazer isso sem avisar, mesmo que fosse a coisa certa a fazer.
Ao mesmo tempo, esperaram o fim do ano para lhe dizer que ele não
acompanha nem a classe do jardim?
Outra coisa:
se essa escola alfabetiza no pré, e ele ainda está
no jardim, penso que seria um risco colocá-lo na 1ª
série, principalmente se ele estiver, de fato, apresentando
dificuldades para aprender.
As histórias
das crianças com dificuldades escolares mostram que tais
dificuldades se originam no início da escolarização
formal. Não sei se vale a pena forçar as circunstâncias.
O fracasso escolar é muito doloroso para as crianças
e para os pais e, se as circunstâncias estiverem apontando
para essa possibilidade, não tenha medo de retê-lo
no pré. Mais ainda se ele não o tiver cursado ainda.
Mesmo que essa
seja sua decisão, não deixe de procurar um especialista,
nem de reavaliar a escola que você escolheu.
Um abraço,
Elisa
Maria Pinto Cesar Andrade
Fonoaudióloga formada pela Ufesp (Escola Paulista de
Medicina), especializada em problemas da aprendizagem escolar.
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